Pequena novela psicológica mostra drama de uma jovem mulher perante as regras do patriarcado
O amor, a loucura e a morte, elementos que costumam revelar a essência e o destino dos homens, constituem os temas centrais que encontramos na obra do escritor de língua alemã Arthur Schnitzler (1862-1931). Em _Senhoria Else_ tudo isso é levado ao extremo a partir do relato da condição da mulher dentro de uma sociedade que só vê no dinheiro e nas aparências a solução de todos os seus problemas. Nessa bela obra literária, deparamo-nos com o escárnio e a falsidade, vemos a humilhação por que passam as mulheres e somos assombrados com a imagem de homens rudes e suas taras atarantadas. O que tudo isso repercute na jovem Else é uma espécie de espelho do sofrimento de inúmeras mulheres numa sociedade patriarcal. Muito além disso, o breve romance nos mostra como muitas famílias promovem o horror psicológico para corromper suas próprias meninas – tudo isso em nome do dinheiro, da aparência, da falsidade.
Na trama desse pequena novela (ou romance curto) cuja história está ambientada no início do século XX, encontramos a protagonista, a Senhorita Else, uma garota de 20 poucos anos, solteira, residente da cidade de Viena, Áustria, onde mora com sua família. Ela está passando uma temporada num balneário italiano, mas o clã está muito mal financeiramente, à beira da falência; mesmo assim, a família faz tudo para manter as aparências e enviar a filha em viagem de férias. Lá, contudo, ela se encontra com uma galeria de tipos humanos que terá de enfrentar ao longo de pouco mais de cem páginas (alguns dias de sua vida). Esses outros personagens, cada qual com sua característica peculiar, podem ser assim resumidos: sua tia Emma, representando o escárnio e a falsidade da vida em sociedade; o primo Paul, a idiotice do homem sem qualidades; Dona Cissy, a inveja e o clúme de beleza de Else; Rudi, o aristocrata vazio de sentido. Completam a trama sua mãe e o pragmatismo de ver na filha a galinha dos ovos de ouro; já o pai é a falência do patriarcado, um homem suspeito de corrupção, falido financeiramente e dependente de um empréstimo para não ser levado à prisão; finalmente temos o agiota Fiala, o credor do pai, aquele que decreta a ruína da família. Para salvar todos, a mãe da Senhorita Else manda ela se relacionar com um tal Senhor Von Dorsday, amigo antigo da família, mas um homem abusador, cheio de taras e perversões. A ideia de pedir um empréstimo ao Senhor Dorsday fica ressoando na cabeça da jovem mulher que se vê obrigada a isso, ou seja, o escândalo de ter que vender seu corpo para salvar o pai das dívidas impagáveis – e o assombro que fica repetido na cabeça de Else pelas letras do telegrama que chega da mãe a repetir-lhe que “o endereço [para enviar o dinheiro] permanece Fiala” – tudo isso vai corroendo a moral da jovem mulher. A humilhação pela qual passa leva Else a um desfecho trágico, longe do imaginado, mas perto do óbvio, dada as circunstâncias irreversíveis. A genialidade de contar esta história dentro da cabeça de Else é o grande triunfo dessa narrativa anti romantismo.
Difícil encontrar algo mais frio e calculista do que as novelas escritas pelo austríaco Arthur Schnitzler – e veja-se que não foram poucas. Considerado o “Freud da Literatura”, tal fama vem do fato de o autor criar em suas obras verdadeiros aprofundamentos psicológicos sobre a condição humana das personagens. Schnitzler escreveu obras tão distintas e empolgantes que, lidas hoje e em sequência, podem ser consideradas algo como a anatomia da psicologia humana em forma de romance. Entre eles estão O retorno de Casanova, Breve romance do sonho, Doutor Gräsler, médico das termas e, claro, esta obra-prima, Senhorita Else. O livro escolhido aqui, para esta resenha, é contudo simples e ao mesmo tempo universal: o drama existencial de uma jovem diante da missão de salvar a família usando o próprio corpo. Todos são romances importantes dentro do panorama da literatura de língua alemã. Arthur Schnitzler também ficou conhecido pelo filme De olhos bem fechados (1999), adaptação do cineasta Stanley Kubrick (1928-1999) de Breve romance do sonho, a propósito seu derradeiro filme. Nesta obra-prima sobre o relacionamento de um casal e as questões envolvendo misoginia, dificuldade de adaptação social, impasses sexuais e traições, além do profundo vazio da alma humana – Stanley Kubrick nos trouxe boa parte dos traços mais fortes da literatura de Arthur Schnitzler.
Em Senhorita Else, esta novela genial sobre a passagem da adolescência para a vida adulta, encontramos na personagem da jovem Else o drama de muitas mulheres que são usadas para ajudar suas famílias, numa ação coordenada que quase beira à prostituição. A genialidade do livro de Arthur Schnitzler está na condução desse enredo intrigante, compacto e fechado, quase claustrofóbico no sentido expor a necessidade de uma garota em ajudar sua família a qualquer preço, mesmo que seja com seu próprio corpo.
Boa leitura.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF
