Numa de suas produções mais assistida, cultuada e querida, o grupo de humoristas da tevê conhecido como Os Trapalhões conseguiram equilibrar – após inúmeras incursões cinematográficas lançadas durante os anos 1970 – comédia e ação, lirismo e poesia, colocando essas dualidades ao lado de questões como arrivismo, individualismo e coletividade em temas sociais que apontam para a exploração do trabalhador pelo patrão. Incrível que essa comédia, Os Saltimbancos Trapalhões (1981), tenha sido ao mesmo tempo um sucesso de público – algo comum para os filmes do quarteto à época – e aclamada pela crítica como a melhor obra realizada pela trupe
Liderados por Renato Aragão (o Didi), os integrantes do quarteto formado também por Déde Santana, Mussum e Zacarias são saltimbancos (artistas populares itinerantes que viajam pelo interior) e trabalham para o Grand Circo Bartholo. Eles não têm um papel definido na organização, são uma espécie de faz-tudo do Barão Bartholo (Paulo Fortes). Atuando como contra-regras, arrumam tanta confusão que o público passa a acreditar ser aquilo um número do espetáculo; logo eles viram a atração do principal. No entanto, o sucesso da trupe desperta a inveja do perverso mágico e hipnotizador Assis Satã (Eduardo Conde) e a ganância do Barão, dono do circo. Acrescente-se aos vilões a domadora de leões chamada de Tigrana (Mila Moreira), que se associa a Satã para dar um golpe no circo e tirar todo dinheiro do Barão, e o leão-de-chácara (o eterno vilão d’Os Trapalhões vivido pelo Carlos Kurt). A verdade é que esse patrão não paga muito bem os saltimbancos, e então eles vivem tentando dar pequenos golpes para conseguir um pouco mais de comida. Até imploram por aumento, o que lhes é negado. Nem sempre conseguem uma boia melhor, e então o jeito é trabalhar e trabalhar. Acontece que Didi está apaixonado por Karina (Lucinha Lins), a filha do dono do circo. O amor é impossível, primeiro porque ela está vidrada em Frank (o galã Mário Cardoso), novo acrobata que chegou recentemente ao circo; segundo porque seu pai jamais permitiria. Contudo nosso herói não desiste, e Didi acaba desmascarando o plano de roubo do dinheiro do circo. Ocorre que no meio do caminho eles são despedidos sob a alegação que o circo está falido e não há mais dinheiro; depois são readmitidos porque o dono percebe que eles são “a galinha dos ovos de ouro”. Eis um filme que fala muito sobre arrivismo, individualismo, exploração dos trabalhadores para um ganho a qualquer custo.
Segundo pesquisa, o filme foi inspirado numa peça de teatro infantil, “Os Saltimbancos”, escrita por Chico Buarque de Holanda e inspirada no conto “Os Músicos de Bremen”, dos irmãos Grimm. No original, em italiano, as canções têm letra de Sergio Bardotti e música de Luis Enríquez Bacalov; na versão em português, a encenação ganhou canções adicionais de Chico Buarque. Ele inclusive canta uma delas ao longo do filme. O compositor e pianista Ivan Lins aparece ao piano durante uma apresentação dos artistas do circo. Entre os momentos mais marcantes, estão os números musicais, pois alternam tanto as trapalhadas do quarteto no picadeiro como as lindas performances das canções pela cantora e atriz Lucinha Lins – aliás premiada dois anos depois num dos grandes festivais de música brasileira da época. Quando do lançamento da peça no Brasil, em 1977, o crítico Nelson Motta escreveu o seguinte ao cobrir a estreia para o jornal O Globo: “Embora criado para crianças, Os Saltimbancos pode perfeitamente se inscrever entre os melhores espetáculos para adultos em cartaz na cidade”. Do espetáculo teatral foi lançado um disco que tem a participação de grandes nomes da MPB, como Nara Leão e Chico Buarque.
O diretor de Os Saltimbancos Trapalhões é J.B. Tanko, que comandou junto com o quarteto de humoristas boa parte dos grandes clássicos da telona: Ali Babá e os 40 Ladrões (1972), Aladim e a Lâmpada Maravilhosa (1973), O Trapalhão na Ilha do Tesouro (1974), Simbad, o Marujo Trapalhão (1975), O Trapalhão no Planalto dos Macacos (1976), O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão (1977), Cinderelo Trapalhão (1979), O Cangaceiro Trapalhão (1983), O Trapalhão na Arca de Noé (1983), Os Trapalhões e o Mágico de Oróz (1983), entre outros. Como se percebe, quase todos são analogias a histórias consagradas na literatura e no cinema. Ao todo, Os Trapalhões produziram mais de 40 filmes entre 1965 e 1995, um fenômeno tanto de audiência na tevê como de bilheteria nos cinemas. A fórmula do humor é sempre a mesma: um herói apaixonado por um amor impossível luta contra vilões; no meio do caminho, muitas trapalhadas. O diferencial de Os Saltimbancos Trapalhões é justamente a sua produção artística, a associação com um grande estúdio (United Artist), o excelente trabalho musical, os figurinos, a coreografia em cena, a sintonia do elenco, o fato de ser baseado numa peça muito bem escrita, o apuramento da temática simples dos Trapalhões e, claro, a interpretação dos protagonistas, àquela altura dos anos 1980, totalmente afinados entre si (a sequência de abertura é impecável). O filme ainda tem espaço para discutir a exploração do trabalho dos artistas do meio circense, algo que também aparece em outro bom filme brasileiro: O palhaço. Outro dado impressionante é o público registrado para esse filme: 5.218.574 pagantes, a segunda maior bilheteria d’Os Trapalhões já registrada (perde apenas para O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, de 1977, ainda sem Zacarias no grupo, mas com o carisma do então integrante recém-chegado Mussum – no filme ele é o Cabo Fumaça). Sucesso total de público! No mesmo ano de 1981, O Mundo Mágico dos Trapalhões consagrava o grupo como uma espécie de síntese de tudo. É sempre bom lembrar que Dedé Santana é um artista que veio do circo, e que Renato Aragão atuou em filmes como Adorável Trapalhão e Bonga, o vagabundo, sucessos que abriram caminho para Os Trapalhões ainda nos anos 1960, naqueles primórdios fazendo dupla apenas com Dedé. A escolha dos outros dois integrantes foi mais ou menos aleatória: Zacarias (Mauro Faccio Gonçalves) era um técnico em contabilidade que se descobriu ator; já Mussum era um cantor de samba que tinha ótimas tiradas no palco. Mussum foi o mais popular dos quatro Trapalhões, criando uma associação de sua imagem com malandragem baseada numa linguagem própria e cheia de bordões que se popularizaram com o “cacildis”, “profetis”, “forevis” entre outros reducionismos de linguagem terminados em “is” e “evis” que caíram no gosto do público.
Para os fãs d´Os Trapalhões com mais de 50 anos, assistir aos filmes do quarteto produzidos durante os anos 1960 e 1990 é um privilégio, principalmente agora que quase todas as obras feitas pelo grupo de humoristas (mais de quarenta) estão disponíveis numa plataforma por assinatura bem conhecida. Para as novas gerações, contudo, o humor talvez seja datado, inocente, e até politicamente incorreto; contudo, a questão social trazida neste belo filme – artistas explorados pela ganância dos donos do dinheiro – esta continua bastante atual.
Bom divertimento.
CULT # 715 – 21/01/2026
Na data da publicação desta coluna, o filme estava disponível no Prime.
