Cult Livro – Minimos, múltiplos, comuns

Premiado com seis Jabutis, João Gilberto Noll tratou da natureza humana como um artista

A exuberância de um artista está em sua intensa imersão no ofício da literatura – e poucos foram os que trilharam o caminho da solidão da escrita desprendendo-se quase que totalmente da dimensão financeira e prática da vida, e isto acontece de forma rara na Literatura Brasileira simplesmente porque quase todo escritor no Brasil precisa sobreviver (até Clarice Lispector precisou vender colunas a certa altura da vida). Dois escritores com linhas evolutivas semelhantes, com vitalidade e intensidade únicas, nos propuseram relatos intimistas que fizeram de seu ofício tanto uma luta interna como uma decepção externa em termos de reconhecimento nacional: Caio Fernando Abreu e João Gilberto Noll. O primeiro, marginalizado, registro isso num compasso letal e profundo; o segundo, sem a compreensão exata de público e crítica do real alcance (diria mundial) de sua literatura. Dois autores intensos que escreveram textos maravilhosos sobre a dor da condição LGBTI+: Caio de maneira escancarada, expondo sua dor em contos e romance, mas principalmente em crônicas e cartas; já Noll optou pelo subterrâneo dessa condição marginalizada nos apresentando personagens errantes que expõem as profundezas da condição humana como uma fratura exposta. E é de Noll que se busca aqui uma espécie de texto-síntese; o livro escolhido foi *Minimos, múltiplos, comuns*.

A síntese improvável e ao mesmo tempo assimilável de uma obra tão complexa, intensa e premiada (tanto no conto como no romance) viria num projeto aparentemente simples e que surgiu nas páginas de um jornal de grande circulação nacional. De 1998 a 2001, João Gilberto Noll escreveu duas vezes por semana nas páginas da Folha de São Paulo o projeto “Relâmpagos”, composta de narrativas com poucas linhas, que se assemelhariam a um conto mínimo, mas que o autor as chamou de romances mínimos. A audácia e a capacidade inventiva e surpreendente dos textos desse projeto foram reunidas, organizadas e consolidadas na edição de *Minimos, múltiplos, comuns* (2003), publicação imediatamente agraciada com o Prêmio Academia Brasileira de Letras na categoria ficção. O livro é composto de 338 textos mínimos que têm em comum a multiplicidade de situações em que o ser humano pode encontrar-se diante delas ao longo da vida, principalmente se esse personagem que percorre as histórias for um indivíduo errante e inadaptado no mundo (eis as profundezas kafkanianas presentes na obra de Noll). A própria instabilidade das fronteiras entre o conto, a crônica e o romance é notória aqui, mas interessou muito pouco a João Gilberto Noll na execução desse projeto ousado. Isso porque a instabilidade desses textos brilhantes (e herméticos, diga-se) mostra a melhor síntese de sua literatura porque são de rápida leitura (mas de digestão demorada). Podemos observar o estilo arrasador, insensato, nonsense e carregado de perplexidades exatamente na linha interna dos textos, em que a força motriz interna de Noll mostra-se em textos como “Ele” (exemplo de sua escrita), “Adão” (o tom da escrita), “Passelo de domingo” (um teatro do absurdo), “Água” (texto que funciona como uma espécie de obra-prima), “Arfante” (no qual as repetições criam um circuito interno no texto) e “Sulino” (uma espécie de pequeno testamento da obra de João Gilberto Noll). Destaque para textos primorosos como “Genética extraviada”, “Caroço do ermo”, “Café”, “Coágulos”, “Bispo da madrugada”, “Avulsos”, “Família”, “Alcova”, “Cega servidão”, “Paradeiro”, “Na clínica” e “Praça da Alfândega”, entre tantos outros. Textos que uma vez lidos logo impõem em nós a necessidade de correr novamente a ele, como uma garrafa de água que precisa ser esvaziada porque a sede é grande. Em todos esses textos, a linguagem é elevada na sua maior potência, e o resultado é um misto de lirismo e escatologia, cercado de música e ritmo das palavras que, juntas, criam novas significações para esses romances mínimos. O resultado: as poucas linhas nos levam a imaginar uma história imensa, ampla, perdida, ali condensadas em palavras exatas, precisas, únicas. Eis o exemplo de “um escritor de linguagem”, mas palavras do professor e escritor Arthur Telló.

Agraciado seis vezes com o Prêmio Jabuti (inclusive com seu livro de estreia, *O cego e a dançarina*), João Gilberto Noll (Porto Alegre, 1948-2017), falecido, ainda precisa encontrar seu espaço definitivo nos altos cânones da Literatura Brasileira. Apesar de centenas de estudos, resenhas, notas, artigos, teses e dissertações terem versado sobre a obra do autor, ele ainda parece um desconhecido. Seu próprio falecimento em 2017, não parece ter despertado nas autoridades gaúchas a importância de um escritor nosso que, sim, muito bem poderia ser membro Academia Brasileira de Letras, ganhar o Prêmio Nobel de Literatura e até mesmo ter seu nome dado a alguma grande avenida de Porto Alegre, sua cidade natal. Como escreveu Flávio Ilha na biografia *João aos pedaços* (Ed. Diadorim, 2021), “acredito que as revelações mais importantes sobre a vida de Noll contidas neste livro sejam relativas ao processo de criação (…) Trata-se de um processo muito sofrido, muito tenso. A escrita que o autor desenvolveu ao longo de 19 livros, em 36 anos de carreira, sempre foi devastadora, pessoalmente falando”. Em seu processo de profunda concentração no processo criativo, que Noll costumava chamar de “surtos de criação”, envergamos um escritor de verdade. Só ele e Caio tiveram horizontes tão amplos e reconhecimento tão restrito, e mesmo que a vida os tenha aproximado, eram dois escritores com personalidades diametralmente opostas.

João Gilberto Noll possui uma produção que caminhou entre a tensão da linguagem e o realismo mais absurdo, sempre com sonoridade e poesia, numa elevação de linguagem que o coloca ao lado de grandes mestres do apuramento do texto, tais como Raduan Nassar e Amilcar Bettegha. Em brilhante artigo sobre o escritor João Gilberto Noll, a escritora Léa Masina talvez tenha feito a melhor definição da obra desse gênio da escrita: “A obra de João Gilberto Noll é considerada um passo decisivo para a inserção do contemporâneo na literatura brasileira. Seus romances e contos propõem narrativas viscerais, verdadeiros espasmos que investigam os desvãos do humano. Para isso, o autor explora a linguagem e a ultrapassa”. E adiante Masina completa: “João Gilberto Noll cria deslizamentos discursivos que lembram associações imediatas tão clara à linguagem onírica. Amplia-se o recurso porque o escritor agrega à narrativa forte dose de lirismo que transforma o ritmo das frases com suavidades, o que choca o leitor pelo contraste com o realismo de narrativas homoeróticas. Nelas há, quase sempre, um personagem errante, um nômade que circula por espaços possíveis e oníricos, condenado sempre à eterna e irremediável solidão”. Toda essa interpretação está presente nos primeiros romances de Noll (*A fúria do Corpo*, 1981, e *Bandoleiros*, 1985), ressurgem intensamente em *Hotel Atlântico* (1989) e se perfectibiliza em *Lorde* (2004), *Acenos e afagos* (2008) e *Solidão Continental* (2012), sua obra final. No auge de sua carreira, contudo, o livro de contos *A máquina do ser* (2006) é uma brilhante inserção no conto e conversa diretamente com os primeiros contos de *O cego e a dançarina* (1980), obra que apresentou JGN para a literatura brasileira e lhe valeu o primeiro dos seis prêmios Jabuti (a maior honraria literária no Brasil). Destaque para *Harmada* (1993), que aprimora e depura todo o estilo do autor, e “esse estilo se constrói pelo encurtamento da narrativa e pela fragmentação, assim como aquilo que está sendo narrado reflete sobre o leitor (…) Assim, “a hipótese sugerida é de que o estilo literário encontrado no romance Harmada induz o leitor a envolver-se no universo descritivo insólito e aparentemente impreciso proposto pelo autor, levando-o, nesse caminho, a perceber o isolamento do protagonista e a ter, ele próprio, a consciência dessa dissolução (in: ARISTIMUNHO, Edgar. “A literatura como artefato de indução – estudo do estilo no romance de Harmada de João Gilberto Noll”, PPG Letras da UniRitter, no prelo). Em *Mínimos, múltiplos, comuns* esse encantamento e encenação encontra no microconto ou mini romance sua melhor e mais depurada síntese. Simplesmente magistral.

*Mínimos, múltiplos, comuns*, com o intrigante subtítulo de “romances mínimos” (surpreendente na medida em que os textos possuem pouco mais do que dez linhas), é um aprendizado intenso sobre a natureza humana, registrada pela mão canhota do escritor num projeto ousado de um dos mais importantes escritores brasileiros do final do século XX e início do XXI. Como escreveu o organizador de *Mínimos…*, “a arte de Noll convida a uma demorada contemplação”, e é exatamente este o convite feito aqui ao leitor.

Boa leitura.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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