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Hospitalares

Resenha de Rubem Penz – Editor

Em tempos de frases em série, poucos autores ainda escrevem como quem luta pela próxima respiração. Edgar Aristimunho o fez — literalmente. Hospitalares nasceu num leito de internação, cercado por sons, medos, febres e aquele perfume insidioso de desinfetante e esperança. O diagnóstico era grave; o verbo, mais ainda. Diante de um tumor agressivo e uma cirurgia arriscada, o historiador transformou sua estadia hospitalar em diário fragmentado — ou, se preferirmos, em minúsculas crônicas de sobrevida.

“Era preciso fazer algo banal”, anota o autor, após ouvir a notícia do médico. E faz: escreve.
Escrever, aqui, não é catarse nem distração — é instinto. Como o do corpo que tenta curar-se, o texto tenta permanecer. Daí a estrutura em pequenos estilhaços numerados, cada um pulsando entre o delírio e a lucidez, o sarcasmo e o espanto. Lê-se de um fôlego ou na falta de ar. Nunca impunemente.

Nos fragmentos, há o humor leve de quem ainda reconhece o mundo, mesmo do avesso. “Vejo que o hospital está gostando de mim. Um amor não compreendido.” A ironia é o soro na veia: impede a infecção do desespero. Edgar observa enfermeiras como personagens de mitologia cotidiana — sereias, serpentes, anjos fatigados — e colegas de quarto como espelhos da própria finitude. Entre um turno e outro, conversa com fantasmas, cita Clarice, Mano Brown, Gonçalo Tavares, Raymond Carver. Cria, sem programar, um coral de vozes literárias que o sustentam no intervalo entre a anestesia e a fé.

A prosa é direta e, ao mesmo tempo, alucinada. Oscila entre a lucidez cirúrgica e o delírio místico do morfinado que enxerga objetos flutuantes. Precisão em duas faces opostas. Em poucas linhas, condensa poesia e prontuário: “A bolsa caminha do paciente para o banheiro. […] No hospital, somos como mortos-vivos.” Há ecos de Dalton Trevisan na economia, de Verissimo na ironia, de Hilda Hilst na ousadia de olhar a morte nos olhos — e anotar o que ela diz, quando, ou se disser.

Mas o que mais espanta em Hospitalares é a ternura. O livro poderia ser apenas relato clínico; escolhe ser carta de amor. Cada aparição da esposa, Elisa, e do filho, Mateus, é respiro literal. É neles que o autor ancora o verbo esperar. “Os amigos: remédio universal para todas as convalescenças.” O afeto é a anestesia que não entorpece.

A médica Maria Amélia Mano, em seu prefácio, percebe esse mesmo fenômeno e o traduz com imagens de rara delicadeza: o café da manhã como “susto que rasga romantismos”, os “pequenos pedaços de coração espalhados pelo chão”, o amor costurando órgãos recortados. Sua leitura de dentro — de quem conhece o hospital cavidade por cavidade — confirma que há, no livro, mais do que resistência: há cura simbólica.

A estrutura fraturada — pulsante partitura — cria ritmo orgânico de monitor cardíaco. O leitor sente a recuperação em tempo real: o humor volta, o apetite, o sonho. No fim, a alta soa como epílogo e renascimento: “Em poucas horas estarei em casa. […] Imito e choro ao pensar em minha casa.” É o ponto em que o paciente vira cronista, e o hospital, literatura.

Há livros que se escrevem apesar da dor; este foi escrito atravessado por ela. No meio da morfina e dos protocolos, Edgar Aristimunho fez o que os bons escritores sempre fizeram: transformou sofrimento em forma — e forma em sentido.

Hospitalares é o testemunho de que, mesmo quando o corpo fraqueja, a palavra — essa teimosia antiga — insiste em ficar de pé.

Alta autoconcedida.

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O Homem Perplexo

Composto por imagens retardadas na memória, fragmentos soltos, contrassenso aos quais nos apegamos sem compreender, O Homem Perplexo é o primeiro livro de contos de Edgar Aristimunho.


Em um mundo onde a lógica é frequentemente questionada e a perplexidade se torna um estado comum, O Homem Perplexo surge como um testemunho extraordinário da condição humana. O autor, Edgar Aristimunho, não apenas aborda a inquietação existencial, mas mergulha profundamente nas nuances de um ser humano em crise, fazendo do nosso protagonista um reflexo sombrio e, ao mesmo tempo, desafiador da sociedade contemporânea.

As 128 páginas desta obra não são meras palavras dispostas em um papel; são janelas para uma realidade paralela, onde cada página carrega o peso da dúvida, da introspecção e do desespero silencioso que acompanha a vida moderna. O que levará um homem a questionar sua própria existência? O que é ser humano em um mundo que constantemente exige respostas? Aristimunho inaugura uma discussão que vai além da literatura, tocando em questões filosóficas e psicológicas que ecoam através dos tempos.  (ler crítica completa no site Próximo Livro.net)

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