Cult Filme – Nada será como antes – A música do Clube da Esquina

Numa homenagem a Lô Borges, a coluna traz um documentário sobre o álbum e sua importância para a MPB

O documentário _Nada será como antes: a música do Clube da Esquina_ é um filme que se torna quase obrigatório para quem gosta da música (e reconhece a importância) de Lô Borges (1952 – 2025) para o desenvolvimento da Música Popular Brasileira (MPB). O disco em questão é _Clube da Esquina_, produzido por um grupo excepcional de artistas, entre eles o agora saudoso Salomão Borges Filho, o Lô Borges, nascido numa família de músicos e criador do Clube da Esquina, que reuniu a fina-flor da música mineira da época.

O documentário _Nada será como antes: a música do Clube da Esquina_ (2023) é o registro do surgimento do grupo de músicos mineiros ao redor do projeto do álbum _Clube da Esquina_ (1972), considerado um dos maiores clássicos da MPB, presente em todas as listas dos dez discos mais importantes do gênero. Na apresentação do filme no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, consta: “O álbum Clube da Esquina é considerado por muitos críticos musicais como um dos melhores de todos os tempos. Milton Nascimento, Lô Borges – então com 16 anos – e músicos do porte de Nivaldo Ornelas, Toninho Horta, Beto Guedes, Robertinho Silva, Wagner Tiso, criaram uma sonoridade única, que ajudou a revolucionar a música brasileira e mundial. _Nada será como antes_ mergulha na musicalidade deste time de músicos excepcionais para entender como referências diversas, influências de paisagens, história e poesia refletiram em cada um deles e na música atemporal que criaram. No filme, as imagens, impregnadas pelas canções, são traduções visuais deste clássico da música mundial”.

Em termos de musicalidade, o filme ainda tem o condão de mostrar como se formaram as linhas evolutivas dessa MPB nascida em Minas, mostrando as influências mais presentes nas composições e arranjos produzidos pelo grupo. E lá vão Beatles, Genesis, Yes, Jazz, música clássica, rock progressiva, música do Leste Europeu, MPB e muitas composições da música de raiz feita em Minas Gerais. Uma aula de música! E isso tudo num filme descontraído como se fosse a gravação de uma conversa de botequim.

A diretora carioca Ana Ripper é conhecida por documentários que produziu, entre eles, o mais conhecido e de maior repercussão, _Vou rifar meu coração_ (2012), que participou de mais de 40 festivais brasileiros e internacionais. O filme foi vencedor dos prêmios de Melhor Filme no _London Brazilian Film Festival_, Melhor Filme no Festival Internacional de Documentários Musicais _In Edit_ Brasil, Melhor Direção e Montagem no Fest Cine Goiânia e Menção Honrosa da Crítica e Melhor Direção de Arte no Festival Internacional de Documentários do Uruguai – Atlantidoc. Ripper dirigiu também o documentário _SX Chico: o Velho e sua gente_, sobre as populações ribeirinhas ao longo do Rio São Francisco. Destaque, ainda, para o premiado documentário _Clementina_ (2018).

Na produção de _Nada será como antes_, a diretora conta em entrevista como foi o processo de concepção e execução do filme, em que contou com o depoimento dos grandes músicos mineiros da época, integrantes do Clube da Esquina. Completam o filme fragmentos de shows, improvisações dos artistas durante a gravação, trechos de filmes rodados na época, além de um verdadeiro sarau espontâneo montado pela família Borges e gravado ao vivo.

Sobre Lô Borges, homenageado aqui nesta coluna, entre suas composições mais famosas destacam-se “Clube da Esquina”, “Feira Moderna”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela”, “Para Lennon e McCartney”; “Trem de doido”, “Clube da Esquina nº 2”, “O Trem Azul”, entre outras. Ele é considerado um dos compositores mais influentes da música brasileira, tendo canções gravadas por Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento, Flávio Venturini, Beto Guedes, Nenhum de Nós, Irai, 14 Bis, Skank, Nando Reis, Os Paralamas do Sucesso, e outros mais.

Sobre sua forte ligação com Minas Gerais, cabe aqui o relato de um leitor da _Folha de São Paulo_ em meio às tantas reportagens em homenagem ao falecimento do músico mineiro, que escreveu: “Pouquíssimos artistas tiveram o dom de realmente compreender e comunicar a essência do que é Minas, e Lô foi um deles. Lô é do mundo, Lô é Minas Gerais (Alexandre Vidon, na _Folha de S.Paulo_, edição 03.11.2025). Ou ficamos com a linda composição de “Trem doido”, onde escutamos a poderosa voz de Lô Borges a nos entregar na faixa o final de tudo, o começo de tudo: “nada a temer / nada a conquistar”.

Ao final da jornada musical proposta no filme, temos informações suficientes para reconhecermos o nascimento de um grande músico do Clube de Esquina, que estreou com o famoso “Disco do Tênis”. Além desse disco inaugural, entre os grandes trabalhos de Lô Borges destacam-se “Trem azul”, “Via Láctea” e “Vida cigana”.

Ao assistir esse documentário extremamente emotivo, familiar e confessional sobre a criação musical, o espectador aprenderá muito sobre música porque o trabalho do Clube da Esquina reuniu compositores extraordinários. E ainda conhecerá um dos discos mais importantes da MPB, o clássico Clube da Esquina de 1972. Ou se preferir, pode ficar na cabeça com a voz de Lô Borges, a nos dizer “se eu cantar / não chore não / é só poesia”. Sua vida foi essa poesia – a poesia da música.

Bom divertimento.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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