Coluna presta homenagem ao grande ator, diretor e produtor fundador do Sundance Festival
Em artigo recente na Folha de S.Paulo, o crítico de cinema Ignácio Araújo lembrou a face humanista e progressista do ator, diretor e produtor Robert Redford (1936 – 2025), falecido no mês passado. Estamos diante de uma figura que merece todas as nossas homenagens. E a Coluna Cult de hoje se associa ao coro da crítica para afirmar aqui que sua contribuição para o cinema ficará para sempre consagrada naquele que foi seu maior feito em vida: a criação do Sundance Festival, dedicado ao cinema alternativo, independente e fora dos padrões hollywoodianos. Esse feito o coloca entre os grandes do cinema, independentemente dos grandes filmes que protagonizou. Destacamos um: *Todos os homens do Presidente*.
No epicentro desse filme está retratado todos os bastidores do escândalo político norte-americano conhecido como *Watergate*, ocorrido no início dos anos 1970 nos Estados Unidos e responsável direto pela renúncia do presidente Richard Nixon (1913–1994). O filme mostra como a partir de um caso de corrupção toda uma rede de intrigas é desvendada chegando-se até o comandante máximo daquele país. Para demonstrar de forma contundente como se chegou a isso, *Todos os homens do presidente* (1976) explora e disseca o trabalho investigativo de dois repórteres do *Washington Post* (Bob Woodward e Carl Bernstein, na vida real), jornal importante no esclarecimento dos fatos. Sustenta a base do filme, além do suspense da investigação e da concepção visual do desenho de cena, a bela atuação dos dois atores que interpretam os jornalistas: Robert Redford e Dustin Hoffmann são a alma desse filme e estão em seu melhor momento da carreira.
A ação se passa em 1972. Sem ter a menor noção da gravidade dos fatos, um repórter (Redford) do Washington _Post_ inicia uma investigação sobre a invasão por cinco homens na sede do Partido Democrata, que dá origem ao escândalo Watergate. Seu trabalho é árduo e, na busca sobre os detalhes dos acontecimentos, ele precisa ter muita habilidade para conversar com gente que não quer falar com ele ou nem mesmo mostrar o rosto; ele então precisa fazer perguntas que muitos não querem responder; saber de fatos que todos querem esconder ou dizer que nada sabem; até que com a ajuda de um colega do jornal (Hoffmann) ele chega ao famoso Garganta Profunda (supostamente o vice-diretor do FBI), sujeito que lhe dá informações que desencadeiam toda a trama que faz com que o escândalo chegue à Casa Branca. Diante da dificuldade para conseguirem informações para suas matérias, esses dois repórteres localizam nomes, pessoas, lugares e fatos. É uma busca incessante que leva ambos ao epicentro de uma crise política que, à época, derrubou o presidente do país mais importante do planeta. É um trabalho sem fôlego de dois jornalistas, um clássico do cinema político. Merece destaque, ainda, a concepção visual do filme, tanto pela fotografia e enquadramentos rígidos quanto pela inovação narrativa de colocar no mesmo quadro duas cenas em andamento ao mesmo tempo, recurso depois amplamente explorado por Brian De Palma.
Quanto à carreira do ator, diretor e produtor Robert Redford (Los Angeles, 1936 – Provo, 2025), basta dizer que ele percorreu todo os caminhos possíveis do cinema grandão, do cinema de grande público, Era de Ouro de Hollywood, os anos 1970. Apesar de estrear de forma tímida nos anos 1960, com História Alta (1960), participou de filmes fundamentais nos anos seguintes. Entre eles, destacam-se A _caçada humana_ (1966), Esta mulher é proibida (1967), direção de Sidney Pollack, Buch Cassidy – Dois homens e _um destino_ (1969), que lhe concedeu o primeiro BAFTA de melhor ator, além de O candidato (1972), Golpe de mestre (1973), na sua primeira versão ao cinema, e O grande _Gatsby_ (1974), um dos seus primeiros sucessos. A consagração veio com Todos os homens do Presidente (1975). Redford ainda participou de filmes de grande público, tais como Entre dois amores (1985), O encantador _de cavalos_ (1998) e Jogo de espiões (2001). Na direção, destaque para Gente como a gente (1980), que lhe rendeu o prêmio de Melhor Diretor no Oscar daquele ano.
Sua importância no mundo cinematográfico como figura articuladora de produções independentes viria com a criação do Festival Sundance de Cinema, que se tornou o maior festival de cinema independente dos Estados Unidos e um marco no cinema underground, ou seja, aquele fora dos padrões rígidos estabelecidos por Hollywood. A história é conhecida: com os rendimentos financeiros de seu sucesso como ator, começando com os salários de Butch _Cassidy and the Sundance Kid_ e Downhill racer, Redford comprou uma área de esqui no lado leste do Monte Timpanogos, a nordeste de Provo, Utah, chamada Timp Haven. Ele rebatizou o local como Sundance, em homenagem ao seu personagem Sundance kid. O festival tem a característica de apresentar ao mundo expoentes na direção que se projetam anos depois. Desde a fundação do Instituto Sundance sem fins lucrativos em Park City, Utah, em 1981, Redford esteve profundamente envolvido com o cinema independente. Ele também apoiava o ambientalismo, os direitos dos nativos americanos, os direitos LBGTQIA+ e as artes, bem como grupos de defesa como o Comitê de Ação Política do Directors Guild of _America._ Em Todos os homens do Presidente, encontramos essa figura política vivida no personagem jornalista em busca da verdade.
E por que assistir a Todos os homens do presidente? Basicamente porque ele continua a ser um filme atual, quase 50 anos depois de seu lançamento. Isso se deve ao fato de que esse é um belo exemplo que nos ajuda a compreender como os escândalos políticos podem derrubar presidentes – lição que o nosso país ainda não aprendeu por completo, apesar de exemplos recentes da História do Brasil. O espetáculo investigativo apresentado pelo filme, além de um trabalho duro e sério de jornalismo político, serve também como um novelo que se desenrola, a partir do qual as aparências da prática político-partidária vão revelando aos poucos os bastidores sujos da corrupção – lição que todo cidadão deve ter encenada aos seus olhos.
Bom divertimento.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF
