Cult Livro – O avesso dos dias

Obra considerada inovadora relata as percepções tragicômicas de um paciente terminal

Em 1999 um pequeno livro de pouco mais de 130 páginas modificava o panorama da literatura brasileira com uma pequena novela sobre as peripécias trágico-cômicas de um paciente supostamente com diagnóstico terminal. Isso nos coloca a questão: como assim cômico? Sim, porque o trágico é fácil imaginar. Não bastasse isso, o livro é divertido em seus pequenos fragmentos, quase um diário, mas em que a memória cavoca no passado para tentar ajudar na recuperação do estado doentio do personagem. Tudo isso com uma linguagem e forma de inovadoras; uma novela com inteligência estrutural capaz de nos prender do começo ao fim; uma lição de vida sobre a reflexão da própria vida.

*O avesso dos dias* apresenta uma narrativa fragmentada na qual acompanhamos o personagem central, um homem sem nome ou idade, que busca na memória as imagens de seu passado, algo que aos poucos vai sendo apagado por um tumor alojado em sua cabeça. Cada página traz uma história que se soma às seguintes e nada mais é do que uma cena, uma faísca, um fragmento que nos remete à nossa própria história. Das páginas de pura ficção de Claudio Galperin, o autor dessa novela, surgem o avô fumando escondido na cabeceira da cama, o amigo louco por tênis kichute e que morre aos 12 anos, a namorada Clara, as crises de asma à beira da banheira ou um hilário diálogo durante uma clássica partida de batalha naval. A narrativa reproduz o processo de deterioração da mente do protagonista, elaborando uma trama não convencional, fragmentária e aparentemente desordenada (considerada transgressora por alguns), mas que o leitor vai percebendo que constrói com precisão o retrato de um fim, um ensaio doloroso sobre o processo do desaparecimento. Tudo isso ainda com classe, erotismo e senso de humor – pasmem. Ao longo da narrativa, quanto mais o tumor cresce, mais o protagonista se esquece; quanto mais ele esquece, maior o esforço (em vão) para se lembrar. A tentativa desesperada nem é a de agarrar a vida. O próprio protagonista sabe que isso é inútil. Pior: ele tem a exata percepção de que tudo continua se esvaindo. Não estamos falando de um caso clínico, não é mais uma dessas histórias de pessoas com uma série de deficiências que está lamentando o seu azar na vida. Galperin não sucumbe ao choro fácil do melodrama. Resumidamente, _O avesso dos dias_ é um livro sobre a memória, essa coisa que nos pertence, mas nos escapa, que não se estampa em nenhum documento, mas é, sem dúvida, a principal marca de nossa identidade. Nas palavras de Fernando Bonassi, que resenhou o livro à época: “Há mais cinismo do que descontentamento. Há mais sarcasmo do que desolação. Há mais gramática do que vida pulsando pelas páginas” de _O avesso dos dias._

Autor mais conhecidos pelas obras infantis que publicou, entre elas _O jarro da memória_ (2013), _A música viva de Mozart_ (2007), _Draguinho_ (2004) e o mais conhecido, _Xeretas_ (2001), Claudio Galperin (São Paulo, 1962) é roteirista e ator. Sua publicação mais expressiva no meio literário, contudo, é _O avesso dos dias,_ essa joia literária e transgressora que o colocou ao lado dos escritores de sua geração. Galperin é conhecido, também, pelo seu trabalho como roteirista, caso de _O Ano em que meus pais saíram de férias_ (2006), do diretor Cao Hamburger, um dos mais comoventes filmes feitos sobre pais e filhos abordando fatos ocorridos durante a Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964-1985). O roteiro também é assinado por Cao Hamburger, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert (diretor dos belos _A que horas ela volta e Mãe só tem uma_ ). Outras participações do escritor como roteirista são _Acquaria_ (2003), espécie de distopia infanto-juvenil girando em torno da falta de água, e _Os Xeretas_ (2001), este último adaptação do livro homônimo. Importante também lembrar seu trabalho na série _Cidade dos homens_ (2002-2018), obra bem avaliada no IMDb (nota 8,2) e vencedora do _Golden FIPA_ do Festival Internacional de Biarritz (França) em 2004 e do Prêmio da Associação de Críticos de São Paulo no mesmo ano, além de ter sido indicada ao Emmy. A série aborda, com uma visão realista e bem-humorada, as aventuras de dois amigos que vivem situações de perigo em uma favela do Rio de Janeiro.

Com uma obra original e inovadora, onde a crítica social caminha lado a lado com o humor e o nonsense, Claudio Galperin nos revela uma vertente transgressora dentro da Literatura Brasileira, ao colocar o drama de um indivíduo sem os filtros e as repressões da sociedade. No encontro de uma vertente dramática com a verve cômica, o escritor paulistano nos entrega um livro de leitura rápida e ligeira, assim como uma obra lúcida, segundo a melhor crítica do país.

Boa leitura.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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