Cult Filme – Melhor é impossível

Nesta comédia consagração, um show de interpretação revela facetas sombrias do sistema de saúde americano

Numa das melhores comédias do cinema americano, a atuação de um ator (Jack Nicholson) e uma atriz (Helen Hunt) fazem com que este filme tenham um alcance social, discuta temas caros até hoje e que tem quase nada de comédia (vamos combinar) porque em verdade este é um filme de aprofundamento psicológico (ou seria psiquiátrico?) profundo. Trata-se de *Melhor é impossível* (*As Good as It Gets*), um trabalho de direção perfeito, com um roteiro extremamente positivo ao tratar de temas delicados como preconceitos (a mulheres, negros, homossexuais e judeus) a partir de condições de saúde que despertam no espectador a empatia pelas personagens.

Melvin Udall (Jack Nicholson) é um escritor de romances de sucesso em Nova York. Ele sofre de transtorno obsessivo compulsivo (TOC), que o isola de seus vizinhos e de qualquer outra pessoa em seu apartamento em Manhattan. Como todos os dias na mesma mesa do mesmo restaurante usando talheres descartáveis que ele mesmo leva consigo. Ele se interessa pela garçonete Carol Connelly (Helen Hunt), a única funcionária do restaurante que tolera seu comportamento abusivo. Certo dia, um vizinho de Melvin, o artista plástico homossexual Simon Bishop (Greg Kinnear) é internado em um hospital por causa de um assalto à sua casa. Melvin é forçado a cuidar de Verdell, o cachorro de Simon. Apesar de Melvin odiar o cachorro, ele acaba criando laços de amizade com o animal à medida em que começa a ganhar mais atenção da garçonete. Suas vidas começam a se misturar a partir da volta de Simon do hospital. Ainda que o centro de atenção seja a condição psiquiátrica de Melvin (inicialmente alguém preconceituoso), o filme explora o terrível sistema de saúde dos Estados Unidos, uma vez que expõe a própria condição irreversível (seria mesmo?) de Melvin, a dificuldade de tratamento decente para Spencer, o filho de Carol, além de apresentar a conta hospitalar astronômica de Simon, o que o leva à falência e à depressão. Como se vê, uma comédia que mascara inúmeros dramas sócio-econômicos na sociedade norte-americana.

*Melhor é impossível* foi dirigido por James L. Brooks, diretor consagrado na televisão por sucessos como *Os Simpsons*, entre outros. O desenvolvimento do trabalho de Brooks na tevê e no cinema chamou a atenção do prestigiado periódico *Chicago Sun Times*, que em 1987 descrevia sua carreira como “crescendo sem parar”. Embora tenha se formado em relações públicas, ele é um dos maiores produtores televisivos da história: começou trabalhando como assistente de Allan Burns e acabou contratado pela *MTM Productions*, onde sua carreira deslanchou. Foi aclamado com vários prêmios, dentre eles 19 Emmy Awards, o maior vencedor do prêmio da história: nove para *Os Simpsons*, três para *Taxi*, cinco para *The Mary Tyler Moore Show*, e dois para *The Tracey Ullman Show*. Seu filme *Laços de Ternura* (*Terms of Endearment*, de 1984) ganhou o Oscar de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Adaptado, algo que mostra o talento desse experiente diretor. Sua obra-prima, contudo, foi a série de animação *Os Simpsons*, uma produção de grande sucesso televisivo, tanto de público como de crítica. Produtor executivo e roteirista da série animada de maior sucesso no mundo, vencedora de diversos prêmios Emmy e que está no ar há mais de 30 anos, James L. Brook foi aclamado como roteirista desta série que lhe deu grande prestígio mundial.

*Melhor é impossível* fala sobre a condição humana distorcida, ou seja, aquela em que reconhecemos nossas limitações mas não conseguimos modificá-la. No filme, a superação de Melvin é na verdade o espelho de todos os nossos anseios, quais sejam, o de um dia conseguir modificar para melhor a nossa condição como seres humanos decentes. Desde que façamos o melhor possível.

Bom divertimento.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF.

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