Cult Livro – A genialidade de Luis Fernando Verissimo (1936 – 2025)

Uma homenagem a um dos grandes nomes da crônica brasileira, gênio lido por todas as gerações

No último sábado (30 de agosto) o Brasil perdeu mais um brasileiro que pode ser considerado um gênio. Se Chiquinha Gonzaga e Heitor Vila-Lobos compuseram maravilhas musicais, Airton Senna recortou as pistas e ganhou campeonatos de F-1, Hermeto Pascual vez música em lata e outros utensílios, Tom Zé brincou de fazer música, Elis Regina rasgou os céus com sua voz, Nelson Rodrigues descortinou a família brasileira e Garrincha eternizou suas pernas tortas ao entortar zagueiros adversários em duas Copa do Mundo (sem falar em Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, e Machado de Assis que muitas vezes parecem ter vindo de outra galáxia), Luis Fernando Verissimo foi um gênio do texto curto, direto, irônico e lacônico, sempre atual – a crônica. Sua produção literária conseguiu um feito para poucos escritores: foi lido por diferentes gerações, vendeu milhões de livros e era totalmente avesso a entrevistas. Uma carreira que começou – acreditem – quase por acaso, por necessidade, ou como ele costuma dizer, “por completa falta de alternativa” para ganhar dinheiro depois de casado. Sua verve jornalística e humorada começou, contudo, em casa, com a irmã, quando fizeram um jornalzinho para “tirar sarro da família”.

O jornalista, cartunista e escritor gaúcho Luís Fernando Verissimo (1936 – 2025) tem uma história de vida em que seus 88 anos de vida parecem ter sido vividos como se fossem o dobro, algo como uns 176 anos de vida, tal a quantidade de atividades de natureza diferente em que se envolveu ao longo dos anos. Difícil até sintetizar tudo isso, algo muito bem-feito pelo professor Luís Augusto Fischer em coluna na Folha de São Paulo do último domingo. Jornalista, cartunista, música, cronista, romancista e torcedor do Sport Club Internacional, Luís Fernando Verissimo escreveu mais de 60 livros, entre crônicas e romances, tendo também participações como ilustrador. Sua volumosa produção também está associada a participações como colunista em jornais como Folha da Manhã, Zero Hora, Jornal do _Brasile,_ por último, em O Globo. Em entrevista fabulosa, o médico e também cronista Drauzio Varela entrevistou LEV e estabeleceu as principais linhas de sua linha produtiva, tanto no campo da literatura como da vida.

Luís Fernando Verissimo foi um escritor genial por dois motivos: por ter conseguido escrever para diferentes gerações e por ter criado uma galeria interminável de personagens (As Cobras e A Família _Brasil,_ por exemplo, vieram ao mundo em forma de cartuns). Uma das características mais marcantes de suas crônicas é situar o leitor em poucas linhas. Sua genialidade em construir hipóteses sobre o que encontraremos pela frente aparece em textos como “Grande Edgar” (aquela situação em que não lembramos o nome de alguém), em textos que lidam com o estado de ânimo do personagem da crônica (como o desastrado assistente do investigador Matinhos, delegado de Cação Podre, cidade imaginária no litoral gaúcho); ou ainda quando ele estabelece a característica central do protagonista pela sua primeira aparição em cena (os joelhaços, tapa na orelha e encontro do Analista de Bagé em suas crônicas); sem esquecer as histórias em que a ambientação, ela própria, cria o personagem (caso do atrapalhado detetive Ed Mort, convivendo com suas baratas e o ratão albino chamado Voltaire numa minúscula sala de uma galeria em Copacabana). Há também casos em que o personagem da crônica está fora do lugar por ser o último a acreditar no governo (caso da Velhinha de Taubaté – se bem que se ela voltasse hoje em dia teria bastante companhia). Em algumas crônicas, o personagem parece querer desaparecer do texto de tanta vergonha do que faz (caso do Gigolô das Palavras) ou ainda aqueles relatos em que Luis Fernando Verissimo nos coloca numa ambientação em situações imaginadas, como a famosa (e cômica) reunião de Deus com sua equipe na crônica “Recriação”, em que o departamento financeiro pede a extinção da Terra por falência do ser humano – e Deus lá, no seu canto, quase dormindo na cabeceira da mesa. A genialidade de LFV também se expressa no fechamento de suas crônicas, sempre surpreendentes, quando não irônicas, por vezes lacônicas. Eis um escritor que ainda será lindo por muitas gerações.

Para o leitor que quer começar a conhecer Luis Fernando Verissimo (alguém aí ainda não conhece?), ou para relembrar este gênio da literatura brasileira, a melhor indicação é procurar nas livraria as constantes recdições, ou nos saldos dos melhores sebos do país, os livros que se concentram nos personagens (O Analista de Bagé, A Velhinha de Taubaté, Ed Mort, o inspetor Marinho do livro Zoeira, O Gigoló das Palavras) e na coletividade de nossa alma nacional (A Família Brasil, As Cobras, As Comédias da Vida Privada, Traçando Porto Alegre ou, ainda, os dois livros fantásticos sobre o Internacional – Autobiografia de uma paixão e A eterna privação do zagueiro absoluto). Este gênio precisa ser Ido. Será.

Como escreveu Luís Augusto Fischer sobre o cronista: “Conferencia relutante, entrevistado lacônico; parceiro musical competente no campo do jazz, amigo certo e solidário com jovens escritores; sutil observador do futebol e torcedor confirmado do time Internacional”, Luís Fernando Verissimo deixou uma janela aberta para viajarmos pelas mais remotas linhas básicas das raízes de nosso caráter nacional, verdadeiros brasileiros desmascarados em suas crônicas, indivíduos entediados com a bestialidade da polícia nacional e observadores dos fatos mais bizarros de nosso país, exatamente como fazia o eternizado personagem chamado Popular, protagonista de uma das crônicas do primeiro livro do escritor, Popular, publicado em 1973, quando já tinha 37 anos. Foi ali que tudo começou. Ou foi antes? Ou depois da sesta da tarde?

Boa leitura.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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