A película traz entrevista com um dos maiores intelectuais e ativistas dos direitos civis nos Estados Unidos
Na abertura das dicas culturais dirigidas para a celebração do Mês da **Consciência Negra**, data comemorada em 20 de novembro, a Coluna Cult faz homenagem a um dos grandes nomes da literatura negra estadunidense dos anos 1950/60 e uma das vozes mais ativas na militância da causa negra e nos conflitos raciais dentro dos anos de ativismo político em busca dos direitos civis nos Estados Unidos: James Baldwin. Seus livros _O quarto de Giovanni_ (1956), _Terra estranha_ (1962) e _Se a rua Beale falasse_ (1974) – este último adaptado para o cinema e disponível na Netflix – são considerados obras fundamentais na literatura negra norte-americana de todos os tempos e tem edição brasileira. O documentário _Meeting the man: James Baldwin in Paris_ (1970) é fundamental para ouvir a clareza do pensamento do escritor e ativista negro.
A peculiaridade e a excepcionalidade deste documentário está no fato de ser um documento legítimo, autêntico e autoexplicativo da experiência de encarar e enfrentar o preconceito e o racismo. Explico. O documentário _Meeting the man: James Baldwin in Paris_ é produção franco-inglesa dirigida por Terence Dixon e é o registro puro e sem cortes de um encontro entre o James Baldwin e os produtores do filme. Durante a conversa – tensa do começo ao fim – Baldwin questiona as intenções da equipe “branca” de cineasta e produtor. Acompanhado de outro ativista da causa negra, o escritor americano sente-se desconfortado com a condução autoritária da entrevista, que envolve desde as locações até perguntas previamente acertadas e não cumpridas pela equipe de produção. A tensão do documentário vai, aos poucos, revelando o próprio preconceito racial dos produtores – segundo a compreensão do entrevistado – e isto acaba sendo o assunto central do documentário.
Entramos, assim, num filme em que a equipe está em debate sobre a própria condição do entrevistado – pessoa negra na Europa. Durante a exibição, compreendemos que um negro nos Estados Unidos é como um argelino na França. Ao final, já bem mais calmo e mais à vontade, o escritor James Baldwin desenvolve suas brilhantes ideias sobre racismo, luta racial, religião, família e homossexualidade. O mundo descrito pelo ativista não é muito diferente dos conflitos raciais observado nos Estados Unidos nos anos 1960/70 e o tema continua a ser bem atual na realidade brasileira. Baldwin questionou, entre outras coisas, o mito da igualdade racial, tema sempre presente em qualquer discussão sobre racismo no Brasil. Sobre a complexidade das ideias de James Baldwin, é possível encontrar algumas outras entrevistas no Canal Youtube. Entre eles, recomenda-se o vídeo “James Baldwin debate com William F. Buckley” (1965), que mostra a importância desse intelectual e ativista num debate acadêmico em que se discute a impossibilidade do sonho americano ser completo diante da desigualdade social e preconceito racial.
James Arthur Baldwin nasceu em 1924 em Nova York e foi o grande inovador da literatura afroamericana entre os anos 1950-1970. Escritor, articulista, negro, ativista e homossexual declarado, Baldwin foi um dos primeiros escritores negros a trazer os dilemas da condição homossexual para o texto literário. É desse período sua maior produção literária e militância ativa. _O quarto de Giovanni_ é o livro fundamental dentro desse ativismo da causa LGBTQIA+, sempre do ponto de vista das lutas raciais dos anos 1960. Sua literatura normalmente está enquadrada no mesmo nível de escritores importantes nessa época, tais como Truman Capote, John Updike e Philip Roth.
Nascido no Harlem, bairro negro de Nova York, teve inúmeras dificuldades em sua família durante a infância e adolescência, inclusive problemas financeiros sérios, fato que o fez ter que cuidar da família após a morte do pai. O talento surgiu logo cedo, e o trabalho em revistas permitiu a Baldwin desenvolver seu talento a partir de uma bolsa recebida na The New School. Seus questionamentos em relação à figura do pai, à religião e à sua sexualidade lhe causou problemas com as instituições religiosas. Sua aproximação aos líderes das causas negras dos 1960, Martin Luther King e Malcon X fizeram de James Baldwin uma das vozes mais expressivas. Devido a perseguições raciais, estabeleceu-se em Paris a partir de 1948 e lá viveu até início dos anos 1970.
O contato com as ideias desse escritor, intelectual e ativista negro James Baldwin nos permite abrir os horizontes no esclarecimento de questões como racismo, preconceito e lutas pelos direitos sociais, entre elas, a causa LGBTQIA+. No Mês da Consciência Negra, este é um aprendizado e uma experiência fundamental para todos nós. Tudo isso com a clareza e a bela fala de um dos intelectuais americanos mais importantes do século XX.
Bom divertimento.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF
