O homem de gelo

Impressiona-me a matéria que leio: “Galatto, o homem de gelo”, na qual são pintadas com tintas de um colorido épico o feito do goleiro Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense no último final de semana. Aliás, elogiável, o feito; até porque não seria eu que não elogiaria a atuação de um goleiro salvando seu time – não interessa o time – e ainda por cima defendendo um pênalti naquela altura do campeonato (literalmente). De certa forma até fico meio abismado com a cretinice do Jornaleco da Azenha escrevendo isso – aliás, típica postura da crônica esportiva tradicional –, já que meses atrás foi ela mesma quem crucificou esse goleiro quando ele cometera pequenas falhas (normais) e depois, agora, tipo sanguessuga, vampiro ou canibal, fica chupando o sangue e a glória do promissor goleiro apenas para vender jornal; em outras palavras, o tal cronista tradicional promove-se em cima da glória alheia. Descarado, o negócio. Reconhecimento é uma coisa; agora criticar no momento difícil e depois elogiar quando tudo já está ganho, já é bem outra coisa; aliás tem nome: cretinice.

Galatto é um bom goleiro que veio das categorias de base do time azul da cidade; coisa, aliás, que o colorado deveria fazer, já que tem atualmente pelo menos três bons goleiros promissores advindos das categorias inferiores (isso sem contar o André, prata da Casa, que sem dúvida, para mim, já deveria ser titular da camisa 1 há muito tempo). A direção colorada tem que criar coragem é promover a gurizada que pede passagem: Marcelo Boeck, Renan e Muriel. Quebrar o preconceito de que goleiro bom é goleiro “com mais idade”, “com mais experiência” (sic).

Trago o feito de um goleiro do mundo real (Galatto) para mostrar a vocês duas coisas: como a crônica é injusta com os goleiros e como devemos apoiar o iconoclasta das traves (sob qualquer circunstância!), uma vez que o arqueiro é um jogador sem dúvida diferenciado e que precisa ficar alheio aos desmoronamentos coletivos de sua equipe. Me refiro aos desabamentos psicológicos que ocorrem durante uma partida…. O goleiro tem que ser o primeiro jogador a ser preservado, e eu fico na dúvida se não deveria ser proibido escrever sobre o goleiro, já que os cronistas oficiais são tão injustos ao escrever sobre eles… melhor seria não publicarem uma linha sequer sobre o guarda-metas. Trocando em miúdos, episódios como este (a glorificação do arqueiro), ocasionais, pueris e oportunistas, não impressionam a classe dos goleiros (já sabemos que a crítica só está esperando uma falha nossa para voltar com tudo, ou seja, com o ranço e o velho preconceito – herdamos isso por conta da falha coletiva da Seleção Brasileira na decisão da Copa do Mundo de 1950, atribuída única e exclusivamente a Barbosa). Ao goleiro, resta a frieza como única arma contra o preconceito.

Vejam, por exemplo, os campos da Coflob. A goleirofobia (aversão à posição do goleiro) tomou conta dos corações e mentes por ali, e essa aversão agora é dominante, avassaladora, cruel, impiedosa e tem feito escola entre os Confrades. Bastou um, depois outro e a seguir outros saírem gritando contra os goleiros (quer dizer sobre “um certo goleiro”) e pronto: eis então que está instalado o caos, o Estado hobbesiano de todos contra todos, digo, de todos os jogadores de linha contra ele, o goleiro. Nesses momentos, é recomendo ao goleiro o gelo – a frieza de uma atuação impecável. Invejo quem tem o sangue frio de ficar alheio à sátira generalizada. Realmente.

O goleiro é, portanto, o único jogador que tem que ficar imune ao caos. Seu universo é outro, o mundo gira diferente para o goleiro, o tempo corre noutro compasso, a glória encontra-se na sutileza e na crueldade de um dia em que sua atuação evita a alegria da torcida adversária, ou seja, nada o assemelha, portanto, aos desentranhamentos psíquicos e à histeria coletiva tão comuns e observáveis nos demais jogadores. Tudo gira para o goleiro numa outra velocidade, numa outra freqüência…. No gol, parado e atento ao jogo, a única certeza que tem que ter o goleiro é esta: a gloria é vã; a crítica, destrutiva, perpétua, ingrata.

Só o homem de gelo resistirá.

Gostou? Não? Comente!

Rolar para cima