Sempre achei justo o esforço da crônica esportiva padrão – esta que invade a casa de vocês através de rádio, jornais ou programas televisivos – confesso que sempre achei justo, porém totalmente desprovido de sentido, a crônica convencional escrever sobre o que escreve: sobre o nada. Sério, a única coisa que dá sentido a tudo é que muita gente ouve ou lê e depois repete; nesse sentido, o esforço aparentemente não é em vão; vende. Mas confesso que eu não acredito na crônica esportiva se ela não falar sobre o invisível, ou seja, sobre aquilo que não está imediatamente dado, claro, limpo para quem assiste a uma partida de futebol. A crônica deveria falar sobre o silêncio, e, no entanto, é uma conversa fiada todos os dias nas notícias, programas, jornais…. Uma barulheira, inutilidade só. O problema aumenta quando você faz como eu, que lê a página esportiva enquanto tenta acordar, e talvez isso explique a razão pela qual para mim é muito difícil entender o que está escrito ali.
Vejam por exemplo a partida de futebol que ocorreu ontem à noite nos campos da Confraria Futebolística-Literária Olavo Bilac, a Coflob. Ninguém viu o que aconteceu, e realmente não aconteceu nada. Aliás, é sempre assim, nunca acontece nada. Vocês é que não percebem, e não percebem porque não têm o privilégio da loucura – a loucura insana de ser goleiro. Então o goleiro, este ente misterioso, ele é o termômetro do time, pois dá a pulsação do estado de espírito geral da nação futebolística. O goleiro é a raiz do futebol amador. E se também ainda não perceberam só existem dois estados emocionais possíveis para o goleiro: a gritaria em campo para tentar organizar seu time ou o silêncio absoluto. Nosso goleiro, o Dêga, esteve silencioso noite passada. Silencioso, soturno, sombrio e sorumbático. Quatro vezes assustador!
Lembrei-me do filme de Win Wenders, a clássica narrativa sobre O medo do goleiro diante do pênalti, mas o medo, senhores, é o medo de que ele não acorde. No caso do goleiro Dêga, nosso goleiro, euzinho aqui, talvez ele tenha medo da lembrança do próprio desempenho na partida da semana passada, em que bizarros acontecimentos lhe feriram a integridade física e moral, quer dizer, mais a moral do que a física. Partida essa em que “fatos inusitados se sucederam”, e é melhor pararmos por aqui porque certas partidas deveriam ser apagadas da vida de um goleiro. O goleiro, aliás, deveria ter o direito de descartar uma partida a cada cinco jogadas. Apagar a tragédia. Mas tudo está ali, tão vivo na memória… O goleiro, aliás, é o único jogador do time com a perfeita memória afetiva da derrota. O eterno fantasma de Barbosa, um injustiçado. E como ainda não temos o poder de eliminar fatos pretéritos, e não repetir aqui a idéia original do filme de Jorge Furtado (Barbosa), resta apenas ao goleiro-cronista como último recurso retórico classificar como “insólita” e “desprovida de sentido” a já pública “falha lamentável” ocorrida nos campos da Coflob noutra data.
Eis a verdade maior do futebol: nada é mais assustador do que o goleiro em silêncio. O medo de que ele esteja “apagado” durante o jogo, pois como já escreveu Nelson Rodrigues, o goleiro é o único jogador responsável em campo, o único que vive a eterna tensão de jamais poder sair da partida, desligar, apagar, sumir. Se ele sumir, pronto: está concretizada a tragédia, em verdade, o gol, o cataclismo, a derrota. Eis porque então o fantasma de Barbosa assusta qualquer goleiro. Porque eles sabem que no fundo todo goleiro que carrega nos ombros a responsabilidade pela derrota, caso venha a falhar, fugir, evaporar. Dá medo.
O medo da eternidade de Barbosa.