Cult Filme – Eu, tu, ele, ela

Produção marcou a estreia da belga Chantal Akerman, uma das pioneiras na abordagem do feminismo no cinema

Na carreira de qualquer grande realizador do cinema, sempre há um começo. Não é nada incomum, nesses casos, que o primeiro filme seja um cartão de visita da obra que se seguirá (exemplos: Quentin Tarantino e seu Cães de alugue!, Pedro Almodóvar e seu Pepe, Lucy e otras chicas del montón e está nesta lista _O rolo compressor e o violinista,_ pequena obra-prima que abre a carreira de Andrei Tarkóvski). São casos em que o primeiro filme resumirá toda a essência da obra. No caso da diretora Chantal Akerman (1950–2015), sua obra máxima vem logo após sua estreia, este Eu, tu, ele, ela (1974), mas esse debate já antecipava Jeanne Dielman (já resenhado aqui na Cult), considerado hoje o melhor filme de todos os tempos segundo lista da revista de cinema Sight & Sound, editada pela British Film Institute.

A história contada e protagonizada por Chantal Akerman em Eu, tu, ele, ela (produção belga de 1975) parece ser banal. Resumo: uma garota de menos de 20 anos (a própria Chantal vive o papel) permanece durante os trinta primeiros minutos do filme dentro de um apartamento, onde movimenta móveis, escreve cartas, olha para a rua pela janela (é um inverno rigoroso) e come açúcar, enquanto anda nua pelo apartamento refletindo sobre a sua condição de mulher. Na segunda parte do filme ela permanece exatos outros trinta minutos dentro da boleia de um caminhão, após apanhar uma carona na estrada. Acompanha esse caminhoneiro em restaurante, bares, postos de combustível e banheiros. Ouve as histórias contadas por ele. Mantém, os dois, uma efêmera relação sexual. Tudo termina quando ela chega à cidade de sua amiga. A partir daí, acompanhamos os vinte minutos do terço final do filme grudados na câmera. O registro agora é de duas garotas jovens (nossa protagonista e sua namorada) que discutem seu relacionamento tenso, nesta altura já abalado pela desconfiança entre ambas. Há falta de amor, desentendimento, tudo sempre num plano de conversa amena e civilizada. Em meio a tudo, as duas transam numa das sequências mais bonitas do cinema, dado a alta qualidade da fotografia do filme, aliás, com marcas de cenário e de encenação que variam dos planos fixos dentro do apartamento (as sequências iniciais), passando para o movimento constante e para o balanço do caminhão (parte do meio do filme) e terminando com a câmera na mão, numa dança poética (parte final do filme), onde predomina uma fotografia em preto e branco bem mais clara e alucinantemente romântica; nada que lembre a claustrofobia da primeira parte e a escuridão dos cenários da segunda parte. Uma linda história contada como se fossem três contos.

Descendente de uma família judaica da Europa central que se mudou para a Bélgica nos anos 1930, a belga Chantal Akerman dirigiu quase 50 filmes, desde documentários até comédias. _Não é um filme caseiro_ (2015), seu último trabalho, foi dedicado à sua mãe, uma sobrevivente dos campos de concentração da Segunda Guerra Mundial. As personagens femininas são sempre importantes e decisivas na resolução da trama de seus filmes. É da diretora a seguinte frase: “Quando as pessoas me perguntam se sou uma cineasta feminista, respondo que sou mulher e também faço filmes”. Entre os seus maiores sucessos, além de _Eu, tu, ele, ela_ (1974), estão: _Jeanne Dilman, 23, Quai Du Comerce, 1080 Bruxelas_ (1975), sua obra-prima. Seguem-se: _Os encontros de Anna_ (1978), _Letter home_ (1986), _Captive_ (2000) e _Não é um filme caseiro_ (2015), sempre com foco no ponto de vista das mulheres nos relacionamentos.

Em _L’enfant aimé_ (A criança amada, 1971), uma jovem mãe vive sozinha com a filha e faz confidências a uma amiga (não por acaso, a própria diretora). Chantal Akerman, embora simpatize com a mãe, não pronuncia nenhuma palavra durante o filme. Em _Hotel Monterey_ (1973), um documentário silencioso, Akerman oferece-nos um trabalho de exploração e observação meticulosa de um espaço para artistas marginais e pessoas em situações de exclusão social, mostrando todo seu vanguardismo na temática social, ao lado, por exemplo, da francesa Agnès Varda. Em seus filmes com protagonistas mulheres (a maioria), a questão do tempo e da memória aparecem como marcas recorrentes; são esses os dois grandes temas abordados em sua obra. Sua sensibilidade em tratar assuntos caros para todas as mulheres (maternidade, casamento, carreira, homossexualidade) talvez esteja agora (século XXI) sendo finalmente reconhecida. Como em seu filme _Os encontros de Anna,_ em que uma diretora busca divulgar seu filme, também Chantal Akerman difundiu suas ideias para um outro mundo.

_Eu, tu, ele, ela_ certamente é uma realização pequena dentro da vasta obra de Akerman, uma das diretoras pioneiras na abordagem do feminismo no cinema. A atualidade de sua obra mostra a posição que ocupa no topo da lista da renomada revista de cinema britânica. Para além disso, é um filme de uma humanidade comovente, principalmente em sua terceira e derradeira parte.

Bom divertimento.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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