Cult Livro – Cem Anos de Solidão

Obra de Gabriel García Márquez fundou o realismo mágico e fez metáfora sobre a América Latina

Considerado a obra-prima da literatura latino-americana, *Cem anos de solidão* é um dos romances mais conhecidos do leitor de língua espanhola; e de brasileiros, uma vez que bastou sua primeira tradução direta para o português para testemunharmos seu sucesso absoluto, imediato, a ponto de influenciar não só uma geração de leitores, mas de escritores também. *Cem anos de solidão* funda um gênero até então (anos 1960) desconhecido do público: o realismo mágico. A importância desse romance é tão grande que ele foi considerado por críticos de Espanha como o segundo livro mais importante da língua castelhana, ficando atrás apenas de *Dom Quixote*, clássico quinhentista escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes. *Cem anos de solidão* é uma reflexão sobre a solidão. Gabriel García Márquez fundou uma literatura.

*Cem anos de solidão* não é um livro simples – tem lá sua arquitetura original, seu ritmo, suas palavras e suas imagens, que fundem realidade e fantasia –, mas o fator determinante de seu sucesso é essa coisa linda de tratar da odisseia de uma família tradicional numa pequena cidade imaginária da América Latina ao mesmo tempo em que fala do amor, dos sentimentos, da dor e da glória, disso de conseguir existir, apesar de tudo. O livro conta a saga dos Buendías e suas gerações, onde cada membro é marcado pela inventibilidade, pela obstinação e pela solidão.

O grande mérito do livro é o fato de contar uma história universal ao tratar dos dramas de uma família ao longo de um século de existência, mostrando sentimentos, contradições, amores, sonhos, risadas, estratégias políticas e por aí vai. Os nomes se repetem como as paixões e os destinos se repetem na obra. Esse ponto de partida é fundamental para alertar o leitor da necessidade de criar um verdadeiro mapa mental para entender a galeria de personagens da família. Ao criar tudo isso na pequena e expressiva Macondo, cidade imaginária criada por García Márquez para ambientar sua saga, vemos que aparecem, de forma condensada, o espaço político, a dinâmica social, as paixões escondidas e todo sistema econômico da América Latina.

O romance é único dentro da literatura universal por ter sido o primeiro a romper com o romance clássico. A qualidade do texto é renovada a cada passagem dessa saga do Coronel Buendía, o que faz com que os leitores fiquem presos ao enredo, à dança das palavras e às imagens criados pelo escritor colombiano. O maior romance da América Latina, esse cruzamento entre realidade e a miséria mais crua, realismo e fantasia, narrativa fantástica e descrições precisas sobre o corpo, natureza e medicina, ou seja, o “mágico” só existe pelo “realismo” dos “ridículos tiranos” da América Latina. Um livro que nos faz ler as páginas desse romance maravilhoso enquanto vamos acompanhando a carpintaria de García Márquez, essa forma de escrever que nos prende a cada capítulo, a cada passagem, a cada palavra, a cada imagem.

O livro é o representante máximo desse comprometimento do autor com a realidade de uma América Latina empobrecida (algo que deixou claro em seu discurso quando ganhou o Prêmio Nobel de Literatura). Em termos de processo de criação literária de García Márquez, podemos afirmar que o realismo mágico é um pacto entre o escritor e o leitor – a magia só existe porque o leitor permite. Seria ingênuo o leitor procurar uma linha única de explicação da obra, aqui entendida como uma alegoria política sobre o sofrimento do povo diante do ridículo comportamento corrupto dos ditadores latino-americanos. Ao criar a fictícia Macondo, Gabriel García Márquez ofereceu um completo cardápio que criou todo um imaginário latino-americano, cuja essência se fundamenta em seus procedimentos criativos e narrativos, a ponto de ter influenciado não apenas legiões de leitores, mas rios de escritores. Desde que foi lançado, sucesso absoluto a ser lido e relido.

O jornalista e escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927 – 2014) foi talvez o último grande contador de história nos moldes que conhecemos e visualizamos como os grandes narradores da América Latina, da Ludo de Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar e Juan Rulfo (de quem García Márquez era fã, seguidor e grande admirador). Como lemos na orelha do livro, no texto de apresentação do livro, o romance será considerado o maior romance latino-americano, “até prova em contrário, da própria literatura ocidental”. Seu tamanho pode ser medido pelo gigantismo de sua influência no contexto do chamado boom da literatura latino-americana, sendo possível identificar a influência de Cem anos _de solidão_ (traduzida para 36 idiomas) em escritores de quase os todos países de Latinoamérica. Gabo, como era conhecido, tinha uma legião de fãs, criou grupos de escritas, brigou com outros escritores (o peruano Varga Llosa, p.ex.) quando achou necessário, e sempre deixou muito claro que tinha um vínculo afetivo com o romance O amor em _tempo de cólera_ (1985). Apesar disso, foi certamente _Cem anos de solidão_ o livro fundamental para atribuir ao colombiano o Prêmio Nobel de Literatura em 1982.

Em seu discurso na cerimônia de premiação pela Academia Sueca de Letras, Gabriel García Márquez afirmou que o romance contempla não só a fluência exótica dos sentimentos e emoções da saga da família Buendía, mas retrata a própria solidão da América Latina. E deixou claro também que o que acontece é que a América Latina sobrevive a sua própria realidade, daí o uso do realismo mágico para poder contar sua história. Em relação a Cem _anos de solidão,_ cabe destacar que nem o escritor colombiano imaginou o sucesso de público e de crítica que o livro faria desde o seu lançamento em maio de 1967. A complexidade da leitura do romance nos entrega tudo de forma maravilhada ao final do texto, porque finalmente entendemos que os atos humanos possuem poesia. Gabriel García Márquez tem seu melhor representante na literatura brasileira no mineiro Murilo Rubião, a propósito, outro grande escritor cuja completa obra (obra composta por 33 contos apenas) foi recentemente relançada pela Companhia das Letras.

_Cem anos de solidão_ é uma obra sobre nossos sentimentos e medos, ações e frustrações, sobre nossos sonhos que sempre continuam vivos – isto acontecendo a cada palavra lançada no livro, a cada imagem criada diante de nossos olhos incrédulos, a cada capítulo montado como elementos-surpresa deste romance fundamental da história universal da literatura e de todos os tempos.

Boa leitura!

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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