Percorrendo o itinerário jornalístico da manhã, entre as poucas coisas que leio no jornal – aquelas manchetes sempre me revoltam o estômago às sete da manhã – ah, eu costumo ler a coluna social. Incrível a semelhança com a crônica esportiva: uma repetição de nomes, dias após dias, e nunca se fala das pessoas e dos eventos se não for, digamos, superficialmente. Tanto a crônica esportiva como a coluna social são altamente incestuosas: ambas parecem reproduzir seus textos com as mesmas pessoas, as mesmas circunstâncias, os mesmos lugares. Tudo se repete, e eu fico sempre muito entediado lendo aquilo tudo. Não há, ali, um aprofundamento existencial das espécies. Esquece-se, por exemplo, o jogo psicológico que acontece durante uma partida de futebol. A crônica esportiva não gosta de psicologias.
E, no entanto, uma partida de futebol é algo estritamente psicológico – o “jogo psicológico” na bela expressão cunhada por um dos participantes da Coflob – nossa Confraria no futebol amador. E digo que o jogo é “psicológico” para não ser injusto, parcial ou rancoroso com os demais jogadores, uma vez que o jogo de ontem foi, sim, um acontecimento estritamente psico-psiquiátrico. E não adianta me pedirem para escrever sobre o jogador que passeia pelas quadras como se fosse um personagem saído de um romance de Eça de Queiroz; também não me peçam para escrever sobre a temporada que já se encerrou para alguns, tal a falta de intimidade com a pelota (só esquecem de avisar isso a eles); nem mesmo eu poderia falar sobre o silêncio, ultimamente ausente nos gramados da Coflob; e, por fim, não me levem a escrever sobre os episódios traumato-sanguíneos que aterrorizaram os campos da Coflob – eis o verdadeiro terror. Isso porque todos esses tópicos aí, toda essa rota de realidade objetiva talvez só interesse à crônica tradicional, e eu me recuso, tal um Ferreira Gullar ao escrever sobre futebol, sim, eu me recuso a entender as coisas de forma unicamente objetiva. Só a poesia para entender o futebol; melhor, só a psiquiatria condenável de um Nina Rodrigues.
Vejam o caso do goleiro. O jogo é puramente psicológico para ele. Desde os detalhes aparentemente mais sutis (o apego à bola, o colorido do uniforme, as luvas especiais, a escolha da goleira, o aquecimento à parte e aquela concentração autista para depois uma atuação psicopática) tudo no goleiro tem um componente psicológico que eu até arriscaria dizer que para ele o jogo não existe. É outro jogo, o dele, do goleiro. Então, vestido com aquele inestimável uniforme autografado por um goleiro que ele tem como ídolo (Diego, o camisa 1 do Atlético Paranaense); sentindo que sua preparação física alcançou naquele dia o ápice (coisa mui rara); e absolutamente relaxado por causa do jogo de bola da tarde com a gurizada do condomínio, com os 25 minutos de boxe e mais uma hora de piscina com o pequeno Mateus (o paraíso), depois disso tudo o goleiro acredita-se no céu, e então ele chega para o jogo do futebol amador já visualizando a esplendorosa apresentação. E então a disritmia acontece.
Quatro gols bizarros: tirando o chute perfeito de sem-pulo alçado no ângulo (o goleiro mal posicionado), temos outros quatro gols esquisitos: um no desatino de uma “unhada” do atacante que quase erra em bola e desloca o goleiro; o segundo um chute defensável num desvio canhestro da zaga; o outro feito pelo atacante que ao tropeçar chuta a bola e a enfia no cantinho; e aquele, “aquele gol”, sim, inacreditável. Na bola lançada em profundidade, lá vai o goleiro, dribla o atacante (meio segundo de glória), despacha a bola com um chutão de canhota que cai direitinho no pé do quarto zagueiro adversário. Lá do outro lado, este zagueiro dá um chute despretensioso do meio da rua, pega o goleiro numa viagem de volta sem fim – a viagem psicológica de acreditar que com ele não, com ele não aconteceria (e acontece) –, pois lhe era difícil acreditar que aquela bola entraria. Chutada de longe, ela viagem uns poucos segundos que duram exatamente o tempo do terror (do goleiro) e da crença (por todos) de que talvez ela não fosse entrar, mas a bola caprichosamente encontra o único vão pelo qual ela poderia passar: entre a linha da rede de proteção, descaindo, raspando o travessão. Um gol bizarro.
Um gol psicológico.