Clássico recente do cinema brasileiro é uma fotografia de nossa sociedade e suas disfunções
Muitos e ótimos filmes produzidos no Brasil nos últimos anos têm nos ajudado a pensar a sociedade em que vivemos. Desde _Baile perfumado_ (1996), _O Alto da Compadecida_ (2000), _Bicho de sete cabeças_ (2000), _Doméstica_ (2001), _Serras da desordem_ (2006), _Branco sai, preto fica_ (2014), _Que horas ela volta?_ (2015), passando por obras extraordinárias recentes como _Temporada_ (2018), _Mormaço_ (2018) e _Mato seco em chamas_ (2022). De todos, um serve como eixo, equilíbrio, ponto de virada: _Bacurau_ (2019), obra dirigida por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, cuja leitura causou desconforto pela forma como retratou elites brancas do Sul do país e homens brancos estrangeiros num enfrentamento épico e de ação contra a população de um lugarejo apagado do mapa, Bacurau, onde líderes espalhados no meio dessa comunidade deram o senso e direção a essa luta de classes com pitadas de distopia e ficção científica. O filme se projeta num futuro não muito longe; mas é como se fosse o Brasil hoje.
A ideia de Bacurau é simples: a resistência à invasão dos estrangeiros é filmada como alegoria da realidade brasileira. Na história, não há exatamente um protagonista ou personagens principais. De imediato, somos lançados para uma cidade no meio do agreste nordestino. Nessa localidade, os moradores e familiares esperam a chegada de Tereza (Barbara Colen), que vem da cidade grande para o velório de sua avó, uma pessoa muito respeitada por lá.
Somos apresentados para Domingas (Sônia Braga) e para outros moradores daquele lugar abandonado pelo poder público, onde um caminhão-pipa ainda precisa levar água aos residentes. Aos poucos, são introduzidos personagens menores fugidos de algum lugar, moradores que descobrem uma chacina, além de um bando escondido numa represa de água, que está propositalmente fechada.
No outro extremo do conflito, a distopia. Isso acontece porque rondando o lugarejo há um grupo de estrangeiros armados como se estivessem numa caçada (ou safári) e usando alta tecnologia. O povo de Bacurau é apanhado de surpresa, mas reage, luta, enfrenta o inimigo preconceituoso e aleatório. O sangue jorra. _Bacurau,_ o filme, é assim ao mesmo tempo um western-policial, um filme de ação, uma ficção científica, ou simplesmente uma resenha social do Brasil de hoje.
De qualquer modo, o mais importante dizer em termos de cidadania é que o filme retrata a sobrevivência. O povo de Bacurau, o lugar retratado pelos diretores, é um lugar onde as pessoas lutam por educação, porque as aulas são dadas de forma precária pelo único professor residente na comunidade; lutam por remédios, entregues ali em pacotes deixados pelo governo e com prazo de validade vencido, quase ineficientes para as doenças registradas na região; as pessoas daquele lugar esquecido lutam por água, transporte, estradas; elas brigam com o prefeito, que aparece apenas para entregar caixões e pedir votos; os que vivem em Bacurau lutam, finalmente, contra o invasor quase alienígena, mas branco e preconceituoso (ver a cena em que paulistas se acham brancos e são chamados de latinos).
E esta distopia com traços de crítica social (em meio a uma alegoria de tipos estranhos) completa-se com a entrada em cena dos caçadores estrangeiros, liderados pelo alemão “nazista” norte-americano Michael (Udo Kier), que persegue e mata os moradores de Bacurau, mas esbarra na fortaleza de Domingas. Tudo se encaminha para o fim quando a comunidade reage, e liderados por Domingas, Tereza e o impressionante Lunga (o ótimo ator Silvero Pereira, pessoa LGBTQIA+, que com apenas 41 anos tem mais de 30 prêmios entre teatro, cinema e televisão), espécie de líder cargaceiro extemporâneo, os moradores retomam o espírito da época de Lampião e, utilizando-se de armas resgatadas do museu de Bacurau sobre as lutas passadas, iniciam a reação. O final é épico – e aberto – a nos dizer que o horror sempre pode voltar. Então é melhor enterrá-lo.
Os filmes do diretor Kleber Mendonça Filho são, quase todos, um convite para o espectador refletir sobre as chagas da sociedade brasileira. Suas inquietações refletem-se na capacidade de criar grandes painéis sobre o Brasil e seus abismos. Essas características podem ser vistas em filmes como _Recife frio_ (2009), uma ficção científica sobre a improvável condição de neve na capital pernambucana e os planos sociais daí modificados, ou _O som ao redor_ (2012), panorama lento e avassalador do comportamento da elite branca do Nordeste e seu passado colonial, ou ainda _Aquarius_ (2016), obra sobre a construção de uma personagem na qual uma moradora (Sônia Braga) se recusa a vender seu apartamento, impedindo assim a demolição de um prédio antigo numa área valorizada da beira-mar da cidade de Recife. Em todos eles, algo em comum: a crítica social.
_Bacurau_ teve uma carreira consagra no Festival de Cannes, com o Prêmio do Júri, sendo apenas o terceiro filme brasileiro com premiações máximas naquele festival (os outros dois foram _O pagador de promessas,_ melhor filme em 1962, e _O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro,_ júri em 1969).
_Bacurau_ é o Brasil, um resumo de uma nação vivendo conflitos sociais extremos. Este é um filme que retrata a sociedade brasileira e seus grandes embates atuais: segregação regional, preconceitos de cor, luta de classes, eliminação dos pobres, políticos corruptos e toda forma de opressão registrada entre brancos e pardos, americanos e latinos, moradores das regiões Sul e Nordeste, seja isto um filme de ação, ficção científica, distopia ou apenas um registro social amplo e cru. Nas palavras do crítico Enéas de Souza da revista Teorema, Bacurau é “um filme onde o espaço tem o que dizer”, e os personagens estão ali para mostrar as distâncias sociais e as formas conflitivas da realidade. Ajudar a compreender essas diferenças é uma das maiores contribuições desta verdadeira obra-prima.
Bom divertimento.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF
