Clássico do cinema brasileiro retrata o Carnaval do Rio em trama policial inquietante
O cinema brasileiro tem caminhos estreitos e por vezes até incompreensíveis quando o assunto é futebol e Carnaval. Em comum, ambos foram relativamente pouco abordados nas telas e na dramaturgia brasileiras, se pensarmos seu volume e alcance histórico-cultural. São dois temas com presença constante na sociedade e, no entanto, poucos foram os filmes que abarcaram com maestria a plástica do futebol e a magia do Carnaval. Se _Garrincha, alegria do povo_ (1962) é um dos melhores momentos da abordagem social do futebol brasileiro, _A lira do delírio_ (1978) é o filme nacional que mais capturou a complexidade cultural e antropológica do submundo carioca e da festa dos quatro dias, o Carnaval do Rio.
Ambientado nas ruas da Lapa, nas calçadas e areias da praia de Copacabana e no carnaval de rua de Niterói e do Centro do Rio de Janeiro, _A Lira do delírio_ é um filme brasileiro de 1978, dirigido por Walter Lima Júnior e com trilha sonora original de Paulo Moura e fotografia do gigante Dib Lufti. Sua importância histórica na abordagem desta festa popular só pode ser comparado a _Orfeu Negro_ e _Quando o Carnaval chegar,_ dois outros clássicos. Em 2015, _A lira do delírio_ entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abracine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos. A produção encaixa-se na bela trajetória do diretor Walter Lima Júnior, cuja obra é composta de filmes de temática sensível e de aprofundamento psicológico dos grupos sociais.
Em A _lira do delírio,_ clássico brasileiro absoluto, temos como pano de fundo a maior festa popular brasileira – o Carnaval do Rio de Janeiro –, durante a qual o filme acompanha a vida de alguns personagens da vida carioca. Na trama, encontramos uma dançarina de boate (Anecy Rocha) que tem seu filho sequestrado pelos traficantes; o ambicioso jornalista (Paulo Cesar Pereio), que está em busca de uma matéria para o jornal; temos um investidor da Bolsa de Valores (Cláudio Marzo), homem bem posicionado na noite carioca, além de membros da Polícia e de um traficante sem nenhum escrúpulo (Tonico Pereira), cujo duplo jogo mostra que ele está disposto a tudo para vencer na vida. O cruzamento desses quatro personagens errantes forma o caldo da trama de Walter Lima Júnior e permite o equilíbrio entre a contemplação daquela paisagem de quatro dias de festa popular e os desdobramentos sociais de uma trama imprevisível e um tanto policialesca.
O filme foi realizado em duas etapas: na primeira, rodada em 16 mm no carnaval de Niterói de 1973, os atores envolveram-se em episódios reais de violência nas ruas; na segunda etapa, rodada em 35 mm e três anos depois, os atores improvisaram boa parte da história policial de sequestro e assassinato, usando seus próprios nomes e o temperamento pessoal de cada um. O filme tornou-se uma homenagem póstuma à atriz Anecy Rocha (esposa do diretor), que faleceu antes da montagem num trágico acidente. De qualquer modo, tirando alguns defeitos técnicos de som típicos dos filmes produzidos nos anos 1970, este é um filme que olha com carinho seus personagens, alguns marginalizados, outros abusadores, alguns tentando levar vantagem em tudo e os outros simplesmente buscando sobreviver.
A sólida carreira e o trabalho do diretor Walter Lima Júnior, nascido em Niterói/RJ em 1938, não é tão extensa em quantidade, mas em qualidade. O diretor é considerado um dos mais líricos dentro cinema brasileiro, responsável por filmes como Menino _do Engenho_ (1966), Chico Rei (1985), Ele, o boto (1986), _A ostra e o vento_ (1991) e O monge e o filho do carrasco (1995). Já em 1969, o diretor ganhou o Grande Prêmio do Juri do Festival de Berlim pelo seu segundo filme: _Brasil Ano 2000._ Junto com o belo e sensível Inocência (1983), A lira do delírio também foi agraciado com o Candango Melhor Filme do Festival de Brasília, considerado por muitos críticos o melhor do país.
Neste perfeito libelo sobre a maior festa popular (o Carnaval), o diretor Walter Lima Júnior conseguiu sintetizar ostentação e pobreza, violência e lirismo, criminalidade e esperança num roteiro ágil que mostra as inúmeras facetas de uma cidade que tem quatro dias de folia e o resto do ano os personagens tentando sobreviver. Em qualquer um de seus filmes, estamos diante de um diretor que prestou um belo serviço ao cinema brasileiro ao tratar do lirismo sem esquecer a crítica histórica em sua obra.
Na mitologia visual que envolve a maior festa popular brasileira, A lira do delírio é muito provavelmente o melhor filme sobre o Carnaval jamais feito no Brasil. Com trilha sonora e música perfeita, atuações e trabalho visual deslumbrantes, o filme de Walter Lima Júnior ressalta na paisagem não como falsa purpurina mas como documento de uma época, retrato de uma cidade, registro definitivo de uma festa sem limites.
Bom divertimento.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF
