Cult Filme – Cidade de Deus

Clássico absoluto do cinema brasileiro retrata a sobrevivência numa favela ao longo de uma guerra entre gangues

Um filme sobre o abandono na infância. E sobre escolhas. Sobre exclusão social. Sobre tudo que o romance com questões como preconceito e racismo; amadurecimento, sonhos e esperança. Que fala sobre corrupção policial. Mas também sobre o amor e a guerra num contexto de conflito armado entre gangues de uma típica (e gigantesca) favela brasileira. Este é um filme sobre o nascimento da violência no exato momento em que a sociedade abandona o indivíduo e a comunidade já não consegue mais dar apoio. Eis, portanto, um dos filmes mais completos do cinema brasileiro, um clássico absoluto. Filme que enfoca uma das comunidades mais importante e representativas da zona oeste do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que retrata o crescimento do crime organizado na região. E é, acima de tudo, um filme sobre a vida, sobre as escolhas, sobre os desafios pessoais impostos durante as tribulações do destino. Este é _Cidade de Deus,_ clássico absoluto da cinematografia brasileira e que a _Coluna Cult_ escolheu para homenagear em sua 69ºª edição.

Em _Cidade de Deus,_ estamos diante de um clássico, considerado um dos expoentes mais expressivos do cinema brasileiro. No enredo central, acompanhamos o crescimento do crime organizado numa favela do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e 1980, através da história de diversos personagens, em especial Buscapé (Alexandre Rodrigues), o narrador em off que vive um jovem aspirante a fotógrafo que quer apenas namorar. O filme é considerado um marco do cinema nacional, elogiado pela crítica por suas qualidades artísticas, estética e por mostrar a brutalidade e as complexidades da vida (e da sobrevivência) na comunidade da favela.

A trama segue a vida de vários moradores da Cidade de Deus, loteamento habitacional que se tornou um dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro. Nele, vemos como a vida das pessoas se transforma em razão do maior ou menor envolvimento com o tráfico; ou ainda, quando acompanhamos o protagonista, Buscapé, um jovem que cresce na comunidade e encontra na fotografia uma forma de se afastar da violência e do crime. Nesse caminho, ele consegue uma oportunidade num jornal de grande circulação como freelancer e registra a dura realidade ao seu redor, primeiro fotografando os traficantes; depois, a ação truculenta de grupos rivais numa execução.

Ao lado de histórias individuais como esta, o filme narra a ascensão do tráfico e do crime organizado na comunidade de Cidade de Deus, mostrando a interação entre diferentes personagens, como os chefes do crime e seus seguidores, e os conflitos que surgem nesse cenário e interferem na vida de moradores sem envolvimento com o tráfico. A trama se desenrola com a necessidade de Zé Pequeno (Leandro Firmido) de se estabelecer como o dono de um império do tráfico na comunidade da Cidade de Deus, e nesse caminho mata, elimina, mas testemunha a morte de seu melhor amigo, novamente persegue inimigos, relaciona-se com a polícia corrupta e nisso vai eliminando os líderes concorrentes, como o chefe da gangue rival, o Cenoura (Mateus Nachtergaele); e tudo isso é feito a partir de uma estética própria que narra a história de forma visceral e realista, onde a violência impõe comportamento e estabelece a dinâmica social dentro das favelas cariocas. Destaque para a participação do Seu Jorge como Mané Galinha, um dos opositores de Zé Pequeno.

O diretor de Cidade de Deus é Fernando Meirelles, aclamado e consagrado após o lançamento do filme. Em Cidade de Deus, ele teve a parceria da diretora Kátia Lund. Também contribuiu muito para o sucesso a elaboração do roteiro preciso de Bráulio Montovani. O filme é baseado no livro homônimo de Paulo Lins publicado em 1997, uma obra literária ainda mais poética no quesito da condução dessa narrativa sobre a sobrevivência numa favela. Outro aspecto da produção é a combinação de elementos como direção de atores, montagem ágil e definitiva de Daniel Rezende, a música exata e pulsante, sem falar na direção de fotografia criativa, esta, aliás, a cargo de César Charlone, artista que revolucionou a fotografia brasileira com aquela abertura em que a câmera cerca Buscapé enquanto de um lado está a polícia; de outro, a gangue de Zé Pequeno.

Premiadíssimo no cenário internacional dos festivais, o filme foi lançado em diferentes línguas pelo mundo afora. Uma das grandes sacadas do diretor Fernando Meirelles foi a utilização de atores não profissionais, o que garantiu autenticidade à obra. Outro grande mérito de Cidade _de Deus_ é perceber como a estrutura de controle do tráfico sobre a comunidade determina até mesmo a sobrevivência das pessoas. O filme serviu de inspiração para outros artistas e obras, e é visto como um retrato próximo da realidade da violência e do tráfico de drogas no Rio de Janeiro.

O esplendor deste filme é tanto que ele foi eleito o 15º filme mais importante do século XXI pelo The New York Times, posição privilegiada na medida em que esta é a única película brasileira selecionada. O filme teve quatro indicações no Oscar, um recorde ainda não superado por nenhuma outra obra nacional. A história da Cidade de Deus continua na série da HBO Cidade de Deus: a luta _não para,_ que explora conflitos entre policiais, traficantes e milicianos mais de 20 anos após os eventos do filme.

Obra-prima incontestável por juntar literatura e cinema – com tintas de Brasil – Cidade de Deus nos leva a uma viagem em que os personagens estão em busca de seus sonhos, enquanto tentam sobreviver em meio a uma luta entre gangues pelo monopólio do tráfico de drogas na comunidade. Por isso, os personagens de Cidade de _Deus_ nos mostram os elementos essenciais da vida social dentro de uma favela brasileira, onde sobrevivência é a palavra-chave que está na linha de frente da população. Um filme completo.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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