Maior documentarista brasileiro comove por meio de histórias de mulheres interpretadas por atrizes consagradas
O cinema tem sua magia, e o documentário, seu gênero mais próximo da realidade, é mais ou menos a possibilidade de dirigir essa magia com a capa de legitimidade ditada pela realidade de uma situação, lugar ou pessoa. Quando essa regra é invertida, temos a genialidade dentro do gênero: a surpresa de filmar a vida de mulheres anônimas e depois interpretá-la pela atuação de atrizes profissionais, fazendo com que os limites da realidade de mulheres da vida real sejam confundidos com a própria vida das atrizes que interpretam essas histórias. Simplesmente genial, mais ainda, quando a matéria desse filme é a investigação desse liquidificador de pulsões entre o relato de mulheres e a interpretação de outras mulheres. A valorização da mulher no centro de tudo.
Num cenário aparentemente simples – o palco e as poltronas do auditório de um teatro como pano de fundo – Eduardo Coutinho filmou histórias de mulheres reais. Tudo começou quando ele colocou um anúncio dirigido a mulheres que estivessem dispostas em participarem de um filme. Oitenta e três mulheres atenderam ao anúncio de jornal para contar a história de suas vidas em um estúdio, sob as lentes de um dos maiores documentaristas que o Brasil já teve. Exatas vinte e três mulheres foram então selecionadas e filmadas em junho de 2006. Em setembro do mesmo ano, atrizes famosas e consagradas do cinema brasileiro como Fernanda Torres, Marília Pêra e Andréa Beltrão interpretaram a seu modo as mesmas histórias, borrando as tênues linhas que separam a realidade da ficção. A interpretação realizada pelas atrizes famosas que foram convocadas por Coutinho acabou por gerar um resultado inesperado até mesmo para o diretor, na medida em que expuseram o entrecruzamento entre realidade e ficção, esgaçando os limites entre a própria atuação e a vida dessas mulheres, atrizes interpretando a história de mulheres reais e refletindo sobre sua própria vida. Até mesmo os ensaios de elenco com outras atrizes testadas para o filme fizeram parte do filme, como se vários filmes estivessem sobrepostos um no outro. O relato de Fernanda Torres é único e exemplar: a dificuldade de uma grande atriz interpretar uma vida real, ali, no filme, interpretando essa pessoa. Simplesmente um filme genial sobre a condição feminina. Assim, o jogo de cena do filme, aqui, é o próprio cinema de Coutinho: sempre o lirismo dentro de um relato do mundo real. Como a crítica bem analisou “Jogo de cena é o cinema de Coutinho levado ao limite de seu maravilhamento (…), a possibilidade de afeto como imersão de mundo, da generosidade de construção de personagem (…) da fala como se fala”, a partir de um conjunto muito tocante. Isto é cinema.
O diretor e gênio cinematográfico Eduardo Coutinho (1933-2014) sempre teve um modo único, especial e bastante particular de realizar seus documentários, gênero muito associado a filmes educativos – uma simplificação, fique aqui dito. Calçado numa maneira própria de conduzir suas entrevistas, e a partir disso alcançar os resultados procurados, Eduardo Coutinho foi um dos mais importantes documentaristas e formou gerações e gerações de documentaristas. Preocupado fundamentalmente com a vida do povo brasileiro, enfocou pequenos agricultores lutando pela terra (Cabra marcado para morrer), revelou as inúmeras realidades das populações urbanas a partir dos moradores de um edifício símbolo da cidade de São Paulo (Edifício Master); depois percorreu os caminhos da religiosidade (Santo forte), reverteu as expectativas ao fazer atrizes interpretar elas mesmas ao interpretar histórias de mulheres reais(Jogo de cena), bem como verdadeiros estudos antropológicos sobre o povo do sertão nordestino (O fim e o princípio). Em todos esses filmes, temos exemplos vivos de seu talento como documentarista, a ponto de podermos afirmar que sua obra é um verdadeiro patrimônio cultural brasileiro.
E como essa construção de suas entrevistas acontecem? Vejamos alguns exemplos. Em Edifício Master (2002), mergulhamos no organismo social de um megacondomínio de apartamentos na cidade de São Paulo, onde somos convidados para uma revelação antropológica: entramos nesse condomínio para descobrir a existência de um código de conduta, de relações de vizinhança e de formas de interação social que, ao mostrarem um condomínio gigantesco, mostram o Brasil. Já em Santo forte (1999), o desdobramento dos depoimentos dos entrevistados, além de revelar a religiosidade e o sincretismo religioso do brasileiro, vai descortinando histórias de vida que impressionam pela beleza e pela peculiaridade com que o ser humano é tratado em seus filmes. Babilônia 2000 (1999) retrata a vida de moradores de duas favelas do Rio de Janeiro o último dia de 1999, quando refletem sobre a própria vida e falam de seus medos e esperanças para os próximos anos. Outro exemplo temos em O fim e o princípio (2005), acompanhamos as gravações de um trabalho realizado sem pesquisa prévia, sem personagens definidos, sem locações previamente escolhidas e ainda sem os temas a serem abordados definidos. Finalmente, em Jogo de cena (2007) a participação dessas mulheres com suas vidas é o mais importante – dessas histórias de vida o diretor retira a matéria orgânica de seu filme. É dessa forma que o espectador vai fazendo o documentário junto com Eduardo Coutinho, na medida em que vemos ele sempre buscando pessoas que tenham histórias interessantes para contar. E assim ele liga a câmera, fala pouco, deixa as pessoas falar e as escuta. Com mínimas interferências e perguntas feitas na hora certa, seus filmes fluem como se fosse um reencontro de velhos amigos – ainda que muitas vezes Coutinho estivesse conhecendo as pessoas diante das câmeras. Seu último projeto, Últimas conversas (2014) realizado a partir de entrevistas feitas com jovens estudantes brasileiros pelo cineasta pouco antes de sua morte, em fevereiro de 2014; o documentário busca entender como pensam, como sonham e como vivem os adolescentes daquela época. Em todos esses filmes, Eduardo Coutinho nos encanta com a simplicidade como vai levando suas entrevistas, aprofundando as questões humanas, surgidas, por exemplo, enquanto definem a entrevista, no momento em que ouve histórias, ou quando alguém chega, e mesmo quando o entrevistado se vira e pergunta: “Aceita um cafezinho?”. É o cineasta encontrando a vida, em seus recantos, em seus remansos.
Como em seu clássico absoluto Cabra marcado para morrer, todos esses filmes enfocam as pessoas em seu meio ambiente social, o ser humano na sua condição limite. São filmes que nos ajudam a romper preconceitos, nos mostram a importância de aprender a ouvir o outro, enfim, nos ensinam a observar a riqueza da vida das pessoas, mesmo que em condições de vida extrema, pobreza, delírio religioso ou pura alegria. Os estados mentais e o ritmo das conversas em seus documentários não se apega exatamente a um roteiro previamente delineado – apenas a vida dos entrevistados que nos é revelada de forma sensível e contundente. E é aí que a arte encontra a vida.
Em alguns momentos, contudo, é a vida que encontra que a arte. E a vida inteira o diretor Eduardo Coutinho procurou retirar da vida de pessoas comum que entrevistava a essência de nossa condição como ser humano – e nisto ele foi mestre absoluto em seu ofício. O cineasta e cidadão Eduardo Coutinho ainda poderia ter chegado muito longe com seu trabalho, já que as fronteiras de sua cinematografia estavam muito além do tamanho do da construção da essência do povo brasileiro. Coutinho é um Brasil interminável. Sua morte abrupta e um tanto irracional encurtou esse caminho, tirando de cena um dos mais importantes cineastas em atividade no cinema brasileiro, deixando-nos órfão de um mestre do documentário.
Jogo de cena é um exercício dessa beleza do registro do encontro entre a vida das pessoas e as pessoas vivendo essa vida.
Bom divertimento.
