Produção indicada ao Globo de Ouro reflete sobre o Brasil de ontem e de hoje a partir de metáforas de nossa cultura
Num dos filmes mais impressionantes do cinema brasileiro atual, indicado nas categorias melhor filme, melhor ator e melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro 2026, “O agente secreto” é uma obra que discorre, com muito bom humor e criatividade, sobre o Brasil de ontem e o Brasil de hoje. Sob qualquer ponto de vista que venhamos a enfocar este filme – aberto de dentro para fora em camadas intermináveis – enxergamos nosso país e seus dilemas ainda não superados: a truculência policial, a repressão política, a produção de mentiras, o sensacionalismo de ocasião e a tomada do Estado como fonte de corrupção para os donos do poder. Há também a resistência – e este parece ser o núcleo mais humano do filme.
Em “O agente secreto” acompanhamos Marcelo (Wagner Moura), um professor universitário especializado em tecnologias que abre o filme em uma estrada e, aparentemente, ele está fugindo de algo. Na primeira parte do filme, ainda não sabemos do que ele está fugindo, mas a sequência inicial deixa bem claro que a polícia está do outro lado. Depois de mais de uma hora de exibição, começamos a nos aproximar do verdadeiro intento de Marcelo, quando ele chega a Recife para se esconder junto com indivíduos que estão fugindo da Ditadura Militar (1964-1985) e, portanto, sendo perseguidos por motivações políticas. O filme demora para mostrar o que aconteceu com Marcelo, mas um flashback inserido no roteiro nos remete ao primeiro Marcelo, o professor que discorda de altos funcionários da Ditadura. Há confusão e ele é perseguido, jurado de morte que passa a ficar. Enquanto isso, vamos descobrindo os sistemas de repressão da Ditadura (a perfeita cena na Veraneio num dia de matança); o poder das milícias (presente nas ações policiais); o uso da máquina pública; as notícias sensacionalistas para dispersar a atenção do público (o caso da perna encontrada no mar); as lendas urbanas daí criadas (a perna atacando populares); o cotidiano da perseguição política (representada no filme pela comunidade de refugiados); e principalmente a ruptura da família diante da catalogação de uma atitude acadêmica como uma forma de guerrilha política (os inimigos da nação). Com isso chegamos ao ponto de Marcelo ter de se afastar do filho (a mãe do menino morreu) e fugir para o exterior. Mas há uma caçada – e ele é a presa. Tudo isso é narrado com bom humor – acredite – e no bom e velho estilo de filmar de Kleber Mendonça Filho, ou seja, com a preparação de cena e a naturalidade da direção de atores.
O diretor Kleber Mendonça Filho, nascido no Recife em 1968, detém neste momento uma carreira cinematográfica sólida, crítica e inventiva. Sua carreira tem uma trajetória representativa, aborda temas polêmicos fortes como as trabalhadores domésticas (Eletrodomésticas, 2005), cria enfoques extravagantes e surrealistas com muita criatividade, sátira e diversão (Recife frio, 2009), viaja nas origens de nossas diferenças sociais mais profundas (O som ao redor, 2012), não esquece dos problemas atuais gravitando em torno da especulação imobiliária versus tradição (Aquarius, 2016); e, por fim, não deixa de projetar um Brasil distópico ao criar uma fantasia no meio do agreste nordestino para nos falar de violência gratuita, comprometimentos políticos e associação de indivíduos pela resistência ao poder e ao horror (Bacurau, 2019). Em “O agente secreto” (2025), a inventividade de Kleber Mendonça Filho encontra seu apogeu ao contar uma história pesada de perseguição política e perda familiar com incríveis toques de bom humor e nonsense – ainda que estejamos falando de Ditadura Militar (o filme é ambientado nos anos 1970). Contribuiu muito para essa união curiosa a presença de Dona Sebastiana (vivida pela excelente Tânia Maria) na organização do núcleo de acolhimento de perseguidos político em luta contra ditaduras pelo mundo, e isso porque essa personagem consegue arrancar gargalhadas do público por seu estilo solto de interpretação, que está bem cotada para premiações internacionais e que, a bem da verdade, nem era uma atriz de carreira, segundo depoimento do próprio diretor. Kleber Mendonça, aliás, consolida neste seu último filme “um jeito Tarantino de filmar”, uma vez que as grandes cenas do filme são preparadas com cuidado na encenação, lentidão dos diálogos e precisão de sentidos a serem apresentados ao público – sempre muitos, sempre múltiplos. Um mestre!
“O agente secreto” segue caminho similar de “Ainda estou aqui”, ou seja, está trilhando o mesmo sucesso internacional, algo que junto com outras realizações recentes (“O último azul”) faz com que esses filmes sejam fonte de orgulho para o público brasileiro. Afinal, novamente uma produção de alto nível representará o Brasil lá fora. Fica então a dica: o filme vai mexer com inúmeros fantasmas escondido por trás de realidades construídas, seja pelos fatos históricos revistados, seja pela tentativa constante de se construir novas mentiras em relação à nossa história de conflitos e de repressão, e de busca pela liberdade das ideias. Ainda que essas ideias venham a custar muito para indivíduos e famílias.
Bom divertimento.
Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF.
