Cult Livro – O imponderável Bento contra o Crioulo Voador

Sátira política ambientada no Brasil dos Anos 80 debate temas como racismo, violência contra a mulher e preconceito

Até na preparação de um roteiro de cinema nos deparamos com cidadania. É o caso de _O imponderável Bento contra o Crioulo Voador,_ editado em forma de uma novela literária, na qual a trama desenvolve uma história política que se dissolve numa aventura quase psicodélica e delirante – e tudo isso com muito bom humor. Difícil acreditar que esta combinação entre sátira e surrealismo possa trazer uma reflexão profunda sobre a sociedade brasileira, mas é exatamente isso que acontece no roteiro não filmado de Joaquim Pedro de Andrade (1932 – 1988). Ao alcançar isso, o diretor nos mostra também a multiplicidade cultural do Brasil, algo já alcançado por ele no seu magnético _Macunaíma_ (1969), clássico absoluto do cinema brasileiro.

Na trama dessa pequena novela, cuja história está ambientada no período final da ditadura civil-militar (1964-1985), encontramos Bento, um oficial da Aeronáutica que tem um caso com Taís, esposa de Mauro, também oficial e amigo de Bento. O relacionamento é permeado pelas movimentações de esquerda, de indivíduos contrários à ditadura. As coisas se complicam quando o marido descobre o caso extraconjugal e decide dar fim a tudo num ato extremo: derrubar um avião da Força Aérea. Então ele convida Bento para um “passeio”. Ao fugir da tragédia, ejetando-se do banco, Bento cai na Chapada dos Guimarães, numa comunidade alternativa, onde adquire poderes de voar com os nativos.

Sua história então vira notícia sensacionalista num jornal de grande circulação dirigido pelo Inescrupuloso Odair Barros (O.B.) que usa Taís, a esposa e amante, para atrair a simpatia Larroque, o poderoso Comandante da Aeronáutica, garantindo a ela o privilégio de escrever a coluna social do jornal mais importante da Capital Federal. Larroque passa então a realizar assédio sexual em relação a Taís, e a perseguir Bento por conta da simpatia deste por grupos revolucionários/terroristas contrários ao regime militar.

É nesse contexto entre sensacionalismo e abuso de poder que surge a figura do Crioulo Voador, um catador de lixo recrutado nas ruas de Ceilândia. Larroque e O.B. numa tentativa mentirosa de criar notícia de que há um indivíduo do povo afim de combater Bento e seus poderes paranormais.

Se em seus filmes Joaquim Pedro de Andrade dialogou com a sociologia (o primeiro curta-metragem sobre Gilberto Freyre), visitou a periferia num filme chave no contexto do Cinema Novo (Cinco vezes Favela), fez antropologia nos subúrbios cariocas (Guerra conjugal), percorreu a antropofagia do movimento Tropicália (a adaptação de Macunaíma) e relatou incidentes trágicos da História do Brasil (Os inconfidentes) e chegou à essência de nossa cultura em seu último filme (O homem do Pau Brasil), foi em _O imponderável Bento…_, seu último projeto, que o diretor visita uma dimensão definidora de nosso caráter autoritário. Ao registrar a truculência dos donos do poder no Brasil na época da ditadura, Joaquim Pedro dialogou com os tempos de hoje.

No posfácio escrito por Carlos Augusto Calli, encontramos a síntese do livro: “Implacável crítica da hipocrisia social e do realismo político, a história de Bento desvela o caráter violento de nossa sociedade”. Na análise do respeitado editor Roberto Schwarz, lemos na última capa do livro: “O roteiro de um filme que não foi feito é uma obra-prima desconhecida de nossas letras. Maravilhosamente escrito, _O imponderável Bento_ é um grande livro da geração de 68. O leitor ficará de queixo caído”.

Filho de Rodrigo Melo Franco de Andrade (fundador do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – Iphan) e de Graciema Prates de Sá, Joaquim Pedro de Andrade passou a infância no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, entre os mais importantes intelectuais brasileiros da época. Manuel Bandeira era tão amigo da família que acabou sendo seu padrinho de crisma.

Na década de 1950, Joaquim já escrevia sobre cinema no jornal da faculdade e chegou a fazer experiências com produções amadoras. No cinema, trabalhou como assistente de direção no curta-metragem _Caminhos_, de Paulo César Saraceni. A troca definitiva da Faculdade de Física pelo cinema viria em 1957, e seu primeiro filme como diretor calhou ser o curta-metragem _O Poeta do Castelo e o Mestre de Apipucos_ (1959), que registra a intimidade do poeta Manuel Bandeira e a do escritor e sociólogo Gilberto Freyre.

Em 1960, ele produziu o curta-metragem _Couro de Gato_, filmado no morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, e fotografado por Mário Carneiro. O filme fazia parte do projeto _Cinco vezes favela_ (1962), que reuniu a nata do Cinema Novo. Em 1963, dirigiu o documentário _Garrincha, alegria do povo_, ideia de Luís Carlos Barreto em parceria com o grande cronista esportivo Armando Nogueira. Em 1965, iniciou as filmagens de _O padre e a Moça_ (1966), com Paulo José e Helena Ignez, um clássico absoluto e totalmente questionador da condição religiosa diante do pecado.

Preso pela ditadura militar em 1969 e liberado alguns dias depois, começou a filmar _Macunaíma_ (1969), seu maior sucesso de crítica e de público. Tem ainda em seu currículo as formidáveis fitas _Os inconfidentes_ (1972), drama histórico sobre a conjuração mineira, _Guerra conjugal_ (1976), sobre relacionamentos truculentos e pervertidos nos subúrbios, a partir do texto de Dalton Trevisan, e seu derradeiro _O homem do Pau Brasil_ (1982), testamento intelectual que debate a necessidade de chegarmos ao caráter nacional a partir das ideias de Oswald de Andrade.

A obra cinematográfica de Joaquim Pedro de Andrade é extraordinária, rica, diversa, única e está muito bem representada no roteiro literário de _O imponderável Bento contra o Crioulo Voador_, escrito pelo diretor nos anos finais de sua vida (faleceu com 56 anos) e jamais produzido e filmado. Com uma cinematografia que percorreu todos os campos sociais e políticos da civilização brasileira, Joaquim Pedro conseguiu em _O imponderável Bento…_ criar uma divertida sátira política com um conteúdo forte de crítica social, tornando-se um dos textos mais pertinentes sobre um dos períodos mais sombrio da História do Brasil.

Concluído em 1986, a primeira versão do roteiro foi abandonada porque o diretor passou a se dedicar ao seu projeto mais ambicioso: a adaptação de _Casa Grande & Senzala_, de Gilberto Freyre. Traços de outros filmes de Joaquim Pedro aparecem no roteiro de _Bento_: o desejo da carne que havia sido a mola do excelente _O padre e a moça_; a sátira e o deboche no tom de chanchada de _Macunaíma_; a ideia de um herói usado pelo poder (como o Tiradentes retratado em _Os inconfidentes_); o caráter cafajeste e abusivo dos personagens, presente em _Guerra conjugal_; e finalmente nosso caráter nacional único presente em _O homem do Pau Brasil_ (e também em _Macunaíma_). A originalidade de _O imponderável Bento_, contudo, é incontestável; eis uma obra única que fala do lugar de submissão da mulher diante dos desmandos de poder, do machismo, do racismo, de preconceito social, além de escancarar a corrupção dos governantes brasileiros de todos os tempos.

O imponderável Bento contra o Crioulo Voador é uma das sátiras políticas mais inteligentes produzidas pela literatura brasileira, comparável apenas, num compasso bem largo, ao clássico _O Coronel e o Lobisomem_, de José Cândido de Carvalho (pelo tom fantástico e pela política dos favores) e a _Sargento Getúlio_, de João Ubaldo Ribeiro (pelo realismo patético). De todo modo, há passagens nesse roteiro cinematográfico que não são nada engraçadas, porquanto a representação criada por Joaquim Pedro de Andrade nos remete ao funcionamento singular da civilização brasileira, isso de operar a deglutição das formas primitivas de nossa cultura para obtenção de privilégios sociais, político e econômica. Uma pequena síntese do Brasil.

Boa leitura.

Publicado originalmente no Portal do Procuradoria Regional da República na 4ª Região — Intranet MPF

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