Hospitalares

Santa Sede Editorial
ISBN 978-65-85114-24-0
112 páginas
Dimensões: 12,5×18 cm

R$ 35,00

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Resenha de Rubem Penz – Editor

Em tempos de frases em série, poucos autores ainda escrevem como quem luta pela próxima respiração. Edgar Aristimunho o fez — literalmente. Hospitalares nasceu num leito de internação, cercado por sons, medos, febres e aquele perfume insidioso de desinfetante e esperança. O diagnóstico era grave; o verbo, mais ainda. Diante de um tumor agressivo e uma cirurgia arriscada, o historiador transformou sua estadia hospitalar em diário fragmentado — ou, se preferirmos, em minúsculas crônicas de sobrevida.

“Era preciso fazer algo banal”, anota o autor, após ouvir a notícia do médico. E faz: escreve.
Escrever, aqui, não é catarse nem distração — é instinto. Como o do corpo que tenta curar-se, o texto tenta permanecer. Daí a estrutura em pequenos estilhaços numerados, cada um pulsando entre o delírio e a lucidez, o sarcasmo e o espanto. Lê-se de um fôlego ou na falta de ar. Nunca impunemente.

Nos fragmentos, há o humor leve de quem ainda reconhece o mundo, mesmo do avesso. “Vejo que o hospital está gostando de mim. Um amor não compreendido.” A ironia é o soro na veia: impede a infecção do desespero. Edgar observa enfermeiras como personagens de mitologia cotidiana — sereias, serpentes, anjos fatigados — e colegas de quarto como espelhos da própria finitude. Entre um turno e outro, conversa com fantasmas, cita Clarice, Mano Brown, Gonçalo Tavares, Raymond Carver. Cria, sem programar, um coral de vozes literárias que o sustentam no intervalo entre a anestesia e a fé.

A prosa é direta e, ao mesmo tempo, alucinada. Oscila entre a lucidez cirúrgica e o delírio místico do morfinado que enxerga objetos flutuantes. Precisão em duas faces opostas. Em poucas linhas, condensa poesia e prontuário: “A bolsa caminha do paciente para o banheiro. […] No hospital, somos como mortos-vivos.” Há ecos de Dalton Trevisan na economia, de Verissimo na ironia, de Hilda Hilst na ousadia de olhar a morte nos olhos — e anotar o que ela diz, quando, ou se disser.

Mas o que mais espanta em Hospitalares é a ternura. O livro poderia ser apenas relato clínico; escolhe ser carta de amor. Cada aparição da esposa, Elisa, e do filho, Mateus, é respiro literal. É neles que o autor ancora o verbo esperar. “Os amigos: remédio universal para todas as convalescenças.” O afeto é a anestesia que não entorpece.

A médica Maria Amélia Mano, em seu prefácio, percebe esse mesmo fenômeno e o traduz com imagens de rara delicadeza: o café da manhã como “susto que rasga romantismos”, os “pequenos pedaços de coração espalhados pelo chão”, o amor costurando órgãos recortados. Sua leitura de dentro — de quem conhece o hospital cavidade por cavidade — confirma que há, no livro, mais do que resistência: há cura simbólica.

A estrutura fraturada — pulsante partitura — cria ritmo orgânico de monitor cardíaco. O leitor sente a recuperação em tempo real: o humor volta, o apetite, o sonho. No fim, a alta soa como epílogo e renascimento: “Em poucas horas estarei em casa. […] Imito e choro ao pensar em minha casa.” É o ponto em que o paciente vira cronista, e o hospital, literatura.

Há livros que se escrevem apesar da dor; este foi escrito atravessado por ela. No meio da morfina e dos protocolos, Edgar Aristimunho fez o que os bons escritores sempre fizeram: transformou sofrimento em forma — e forma em sentido.

Hospitalares é o testemunho de que, mesmo quando o corpo fraqueja, a palavra — essa teimosia antiga — insiste em ficar de pé.

Alta autoconcedida.

Peso0300 kg
Dimensões18 × 12 × 2 cm
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